ÁGUA MOLE EM PEDRA DURA
05/07/2016


"Água mole em pedra dura tanto bate até que fura".  Nascido no interior, ouvia muito essa expressão em sentido figurado, mas via o sentido literal nas rochas onde desciam as cachoeira.  Só não tinha uma ideia de quanto tempo a água leva para fazer um furinho na pedra. Mas, com passar dos anos, as informações vieram aparecendo.

 

 

Nascido em um meio rural, onde praticamente cem por cento da população crê na divindade judaico-cristã, aprendi que nosso mundo teria sido criado havia menos de seis mil anos.  Eu olhava aquelas rochas onde batiam as correntes das cachoeiras, onde havia aqueles sulcos que qualquer criança podia entender ter sido feitos pela água, eu pensava: seis mil anos é muito tempo mesmo, pois a água desgastou vários centímetros em uma rocha tão dura.  Jamais me passava pela cabeça que a água teria levado bilhões de anos para erodir toda uma montanha de terra, chegar à rocha e formar aqueles sulcos. 

 

Quando, do alto da montanha, via meu pai cortando lenha, observava algo estranho: o som machadada ocorria quando ele levantava o machado.  Como nunca tinha ouvido sobre a velocidade da luz, já imaginei que existisse a velocidade do som.  Mas isso era coisa para ser esclarecida quando faria o supletivo do primeiro grau.

 

Estudei o primário, aprendendo um pouco de biologia, um pouco de geografia, mas nada do que era ensinado nas escolas onde estudei me dava a entender que o mundo fosse muito mais antigo do que me ensinaram.  Algumas coisas me pareciam incoerentes, mas, como nenhuma fonte de informação eu tinha para esclarecer, continuei pensando que o nosso planeta fosse algo tão especial criado há tão pouco tempo, com uma fauna e uma flora bem específica.  A expressão "evolução biológica", eu nunca vi em um livro ou ouvi de alguém senão lá pelos vinte anos, quando já estava morando em Rondônia. Os livros que recebia na escola, naqueles tempos ditatoriais, não tinham nada que nos deixasse perceber os equívocos das ideias religiosas.

 

Cheguei a ouvir que o mundo era bem planinho, de um canto a outro, e o dilúvio universal bagunçou totalmente a sua superfície.  Todavia, lembrando do detalhe de que a arca de Noé teria parado no cume da mais alta montanha do mundo, e que todos os altos montes havia sido coberto pelas águas, percebi que essa ideia era claramente enganosa. 

 

Naquele meio rural, onde meu conhecimento astronômico era pouco mais do que o dos homens inspirados de Yavé, observando o caminho do Sol, de uma à outra extremidade dos céus (Sl 19:6), notando uma pequena curva nesse caminho, eu deduzia que o astro devesse fazer uma volta em outro canto do mundo até retornar ao ponto em que eu o via ressurgir. Também ficava imaginando que lá no meio do mundo, que não sabia onde seria, as pessoas devessem ver o Sol fazendo toda essa curva. Só muitos anos depois, quando vim a saber que a Terra não é como um disco ou um quadro a flutuar sobre um oceano, mas uma bola que viaja pelo espaço, é que descobri que essa aparente curva do Sol é vista por quem estiver próximo do polo onde a estação for o verão.

 

Naquele meio extremamente racista, onde um casal de pessoa branca com pessoa negra era sempre olhado com estranheza, ouvi uma estória contada, acreditem, por um senhor negro: Caim, após matar Abel, para se disfarçar, se tingiu de preto e, quando resolveu se limpar, pulou em um córrego, mas o deus criador fez com que a água secasse imediatamente, e ele só conseguiu lavar as palmas das mãos e as solas dos pés. Então, todos os descendentes de Caim nasceram negros para sempre.  Um dia, pensei algo sobre isso:  se, por ocasião do dilúvio universal, só sobreviveram Noé, a sua mulher e seus três filhos com suas mulheres, como poderia existir descendência de Caim?  Havia algo errado nessa história contada pelo meu vizinho.  Só aos vinte anos de idade, ouvi uma outra estória, essa contada por adventistas: Seria a descendência de Cão, o filho amaldiçoado por Noé que teria se tornado negra; e, por isso, os negros teriam sido escravos, por causa da maldição de Noé.  Depois, comprando um livro chamado "Manual Bíblico", li a mesma estória, detalhando bem esse conto.  Vejam texto em meu artigo "A ORIGEM SAGRADA DO RACISMO".

 

Outra história igualmente sem lógica encontrei na Bíblia: os homens gigantes.

 

“Naqueles dias estavam os nefilins na terra, e também depois, quando os filhos de Deus conheceram as filhas dos homens, as quais lhes deram filhos. Esses nefilins eram os valentes, os homens de renome, que houve na Antigüidade” (Gênesis, 6: 4).

 

“Também vimos ali os nefilins, isto é, os filhos de Anaque, que são descendentes dos nefilins; éramos aos nossos olhos como gafanhotos; e assim também éramos aos seus olhos” (Números, 13: 33).

 

Semelhante história dos negros serem descendentes de Caím, não havia como os Nefilins antediluvianos deixarem descendentes para os dias de Israel.  Pois segundo a própria Bíblia, não sobreviveu ao dilúvio universal ninguém além de Noé e sua família.

 

Muitas outras coisas aprendi na infância que chocavam com a realidade que eu via, e só vim a entender por que, depois que entendi que o livro sagrado dos judeus e dos cristãos contém idéias de pessoas muito primitivas, que acreditam que o mundo fosse plano e quadrado e que as estrelas pudessem cair sobre ele

 

Como a água que bate na pedra até deixar marca, eu ia batendo em cima do que ouvia e tentando entender.

 

Um dia ouvi meu pai dizer que nosso vizinho que era professor havia dito que o Sol era oitocentas mil vezes maior do que a Terra.  Já foi uma novidade.

 

Sem fontes para consultar, trazia na cabeça muitas perguntas, como: por que nosso mês de setembro é o nono mês, e não o sétimo?  Por que existe segunda-feira, se não existe primeira-feira?

 

Quando ouvi astrólogos dizerem que áries é a primeira casa astral, já comecei a desconfiar que algum dia o mês de março teria sido o primeiro mês, sendo setembro o sétimo.  Mas nada da história que eu havia lido falava sobre isso.

 

Ao comprar um relógio com um calendário semanal com Dia do Sol (Solis), Dia da Lua (Lunae), Dia de Marte (Martis), Dia de Mercúrio (miercolis), Dia de Júpiter (Juevis), Dia de Vênus (Viernis) e Dia de Saturno (Saturni), já imaginei que os dias da semana, algum dia e em algum lugar teriam tido os nomes diferentes.  A única coisa que já tinha lido é que a Igreja Católica havia trocado o sábado pelo domingo, transformando o "Dies Solis", dos romanos em "Dies Dominicum" (Dia do Senhor).  Aí comecei a imaginar por que não havia primeira-feira, mas ainda não encontrei nada sobre a semana cheia de feiras.

 

Só depois de mudar-me para Belo Horizonte, é que comprei um livro antigo, chamado Historia del Oriente, que informava que os criadores das medidas do tempo foram os sacerdotes caldeus, e eles criaram a semana em honra aos sete astros; e eles eram muito mais antigos do que os criadores da Bíblia. 

 

A essa altura da vida, já havia descoberto que o deus em que havia aprendido acreditar desde a infância não passava de produto do pensamento bárbaro dos antigos hebreus.  Daí em diante ficou mais claro o mal que as religiões têm causado ao mundo ao lutar contra a Ciência e tentar impor ao povo o pensamento primitivo.

 

Um pouco antes de descobrir os enganos da palavra divina, deparei com um livro chamado "O Homem e Busca de Deus", cujo escopo era, não só provar que o deus cristão era o deus verdadeiro e os demais eram falsos, mas também tentar desconstituir a descoberta científica de que todas as espécies evoluíram de uma única forma de vida primitiva.  Mediante a leitura do livro, comecei a ver o contrário do que o livro queria informar, ou melhor desinformar, comecei a entender que a evolução é um fato inegável, o que passei a confirmar pelos estudos posteriores.  As semelhanças e diferenças existentes em cada espécie já começaram a ser para mim um testemunho de uma ancestralidade comum; os poucos registros fósseis de que tomei conhecimento, embora tão criticados pela falta de outros intermediários, já se me apresentaram suficientes, uma vez que, se encontrarmos um livro com páginas numeradas até 100, mesmo que lhe falte até a metade delas ou mais, é suficiente para entendermos que aquelas que faltam existiram algum dia.

 

 

... texto ainda incompleto



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