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CHOQUES MORTAIS HÁ TREZE MILÊNIOS

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Extinção em massa há 12.900 anos: a Terra foi atingida por um cometa? (parte 1)

As atualizações em função das recentes descobertas na Califórnia estão destacadas na cor azul.

O 'mamute lanoso' foi uma das espécies extintas na América do Norte há 12.900 anos

Nano-diamantes encontrados na América do Norte podem ser evidências de uma grande mudança climática provocada por cataclismo causado por um megaevento cósmico, 13 milênios atrás.

Nano diamantes coincidem com o início da glaciação 'dryas recente'

Já era reconhecido que um esfriamento global massivo surgiu de forma abrupta, há aproximadamente 12.900 anos, concorrentemente com a extinção de cerca de 35 espécies distintas de mamíferos, incluindo o mamute-lanoso, 19 gêneros de aves, assim como a conhecida cultura do povo de Clóvis – os norte americanos pré-históricos.

Várias teorias haviam sido propostas para esse extermínio em massa, aventando hipóteses tais como uma mudança climática súbita ou caça em excesso de grandes mamíferos quando os humanos se entenderam pelas zonas selvagens da América do Norte.

Agora, nano-diamantes encontrados nos sedimentos relativos a este período de tempo apontam para uma alternativa mais plausível: uma série explosões massivas procedentes de um enxame de fragmentos de um cometa que atingiu a Terra em evento similar, porém bem maior, ao famoso evento de Tunguska em 1908 na Sibéria.


6 sítios arqueológicos foram estudados

Os sedimentos de 6 sítios arqueológicos ao longo da América do Norte (Murray Springs no Arizona, Bull Creek no Oklahoma, Gainey em Michigan, Topper na Carolina do Sul, Lake Hind em Manitoba e Chobot em Alberta) analisados pelos cientistas apresentaram estes minúsculos diamantes, conforme pesquisa publicada na revista Science. Tais nano-diamantes só aparecem em sedimentos expostos a extremas pressões e temperaturas, associados em geral a explosão ou impacto de um cometa ou asteróide massivo.
 

Dryas recente?

A descoberta suporta uma teoria lançada em 2008 que tenta explicar o resfriamento ocorrido no período conhecido como “Dryas Recente” (Younger Dryas). Essa teoria, denominada “Younger Dryas impact event“, ressalta que algum tipo de impacto ou impactos cósmicos – como um cometa fragmentado que queima na atmosfera e que cai sobre os oceanos – deu início a um período de resfriamento de 1.300 anos no Hemisfério Norte que foi associado à abundância de pólen de uma flor alpina (Dryas octopetala) encontrada durante essa época nos sedimentos.

Impacto profundo? Esta camada de 40 centímetros de sedimentos negros descoberta em Murray Springs, Arizona, pode indicar um impacto cósmico ou explosão que deflagrou um período de resfriamento global e extinção em massa na América do Norte. Nano diamantes foram encontrados na camada escura, logo acima dos fósseis dos animais extintos. Cortesia de Doug Kennett

O período de resfriamento interrompeu um período de aquecimento desde a última grande idade de gelo prevista pelas pequenas mudanças na órbita da Terra (conhecidos como ciclos de Milankovitch), aquecimento este que perdura até hoje. Tal resfriamento fora do ciclo era considerado uma anomalia inexplicável nos registros climáticos.


Uma chuva de fragmentos de cometa extinguiu mamíferos e aves?

Mas uma série de fragmentos de cometa explodindo sobre América do Norte poderia explicar uma camada de solo imediatamente anterior ao resfriamento que contém altos níveis de irídio – um elemento comum nos objetos que vagam pelo cosmos como os meteoróides e raro na crosta terrestre. A associação dessa presença da camada de irídio imediatamente acima de sedimentos que contém os fósseis de pelo menos 35 espécies de grandes mamíferos e 19 gêneros de aves extintos, incluindo o mamute-lanoso, o tigre dentes-de-sabre (smilodon), o megalonyx, o teratornis e outras feras é uma prova circunstancial da ocorrência de uma calamidade cósmica.

“Encontraram-se indicadores de um impacto muito forte em sedimentos negros, em Murray Springs, diretamente acima de restos de animais e dos humanos que os caçavam”, disse o arqueólogo e co-autor do estudo Douglas J. Kennett da Universidade de Oregon em Eugene, o filho da equipe ‘pai-filho’ que ajuda na pesquisa sobre essa nova teoria de impacto. “Será um cometa? Será condrita carbonácea? Fragmentou-se? Estava concentrado? Baseando-se na distribuição dos nano-diamantes, certamente foi um impacto em uma grande escala”.

O povo de Clóvis produzia elegantes e eficazes lanças usadas nas caçadas

Pesquisas anteriores em um campo mais amplo (Europa, Ásia e América do Sul) têm apresentado minerais similares e elementos em sedimentos da mesma idade, disse Kennett, e seu próprio trabalho nas Ilhas do Canal da Califórnia contam a história de um incêndio massivo, seguido por uma erosão e uma mudança total na flora da região.

“Tal cenário é consistente com objeto fragmentado que se rompeu mediante as ondas de choque e um possível impacto de superfície em diversas partes da América do Norte. Poderia ser sobre a capa de gelo nas profundidades do oceano”, disse, explicando por que não se tem encontrado crateras de impacto até hoje. “Os efeitos imediatos sobre o terreno incluem altas temperaturas e pressões que deflagraram grandes transformações da vegetação, derrubando árvores e as queimando também”.

Isto faria que a mudança climática do período denominado “Dryas recente” (GS1) fosse uma réplica em menor escala do cenário do impacto de asteróide que aniquilou os dinossauros há 65 milhões de anos. “Este é um evento que aconteceu em um só dia”, aponta Kennett. “Vamos necessitar um maior detalhamento nos registros climáticos, arqueológicos e paleontológicos para tentar explorar esses efeitos”.


O mistério do fim do povo de Clóvis foi esclarecido?

As causas da extinção dos mamutes e o colapso da cultura de Clóvis junto com anômala glaciação (Dryas recente) tem sido longamente debatidas. Apenas a teoria do impacto consegue responder pela ocorrência simultâneas desses três eventos, conclui Douglas J. Kennett.

O desaparecimento dos mega mamíferos e outras feras coincide com o fim da produção dos artefatos do povo de Clóvis há cerca de 12.900 anos. O povo pré-histórico de Clóvis viveu expalhado pela América do Norte por centenas de anos. Os Clóvis eram caçadores competentes e usavam artefados sofisticados. O povo de Clóvis introduziu uma evoluída tecnologia da ‘idade da pedra lascada’, a conhecida ponta de lança, denominada a “Ponta de Clóvis”. Esses paleo-índios desapareceram repentinamente no início da era glaciação “Dryas recente”, ou grande congelamento, que colocou a Terra em uma ‘quase nova grande era glacial’ por 1.300 anos.


Novas evidências foram encontradas na costa da Califórnia! [julho de 2009]
 

Este mapa mostra as Ilhas do Canal da Califórnia. As ilhas marcadas com círculos foram antes uma só massa de terra unida.

Este mapa mostra as Ilhas do Canal da Califórnia, onde fuligem e nano-diamantes sugerem um impacto cósmico mortal. As ilhas marcadas com círculos foram antes uma só massa de terra unida.

Este mapa mostra as Ilhas do Canal da Califórnia. As ilhas marcadas com círculos foram antes uma só massa de terra unida.
 

Este mapa mostra as Ilhas do Canal da Califórnia, onde fuligem e nano-diamantes sugerem um impacto cósmico mortal. As ilhas marcadas com círculos foram antes uma só massa de terra unida.

Os arqueólogos há algum tempo têm se questionado se ocorreu realmente um impacto extraterrestre que devastou a América do Norte há 12.900 anos, trazendo a destruição na superfície terrestre e extinguindo espécies de animais como o mamute pigmeu (um tipo de mamute só encontrado nas Ilhas do Canal da Califórnia) e o cavalo selvagem americano).

James e Doug Kennett (pai e filho) nas Ilhas da Califórnia

Novas pistas encontradas nas Ilhas do Canal da Califórnia irão acabar com todas estas dúvidas, segundo um time internacional de pesquisadores. Um time de grande porte com 17 membros, liderados pelo arqueólogo Douglas J. Kennett da Universidade do Oregon encontraram novas evidências procuradas: diamantes hexagonais sintetizados por impacto em sedimentos de 12.900 anos de idade na Ilhas do Canal Norte na costa da Califórnia.

Os nano-diamantes e os aglomerados de diamante foram soterrados embaixo de 4 metros de sedimentos. Eles datam do fim da era do povo de Clóvis – uma cultura paleoíndia – os primeiros habitantes humanos da América do Norte. Os nano-diamantes foram trazidos do Cânion Arlington para a Ilha de Santa Rosa, a qual no passado ficava adjacente às três outras Ilhas do Canal em uma massa de terra chamara Santarosas.

Os diamantes foram encontrados junto com fuligem que se forma sob fogo bem quente, e eles sugerem a ocorrência de incêndios regionais, baseados nos registros ambientais das áreas vizinhas.

A presença deste tipo de fuligem e nano-diamantes é rara nos registros geológicos. Estes dois componentes também foram também encontrados em sedimentos datados de 65 milhões de anos atrás quando impactos massivos de asteróides marcaram a fronteira dos períodos K-T (Cretáceo – Triássico). Uma fina camada de sedimentos ricos em irídio e quartzo remonta ao período da transição K-T que marca o fim da era Mesozóica e o início da era Cenozóica.

O microscópio eletrônico mostra um cristal único de lonsdaleite, à esquerda, e seu padrão associado de refração. Crédito: Universidade do Oregon

O microscópio eletrônico mostra um cristal único de lonsdaleíta, à esquerda, e seu padrão associado de refração. Crédito: Universidade do Oregon

“Os diamantes encontrados – chamados de lonsdaleíta – são sintetizados por impacto e definidos por sua estrutura hexagonal cristalina.

Os nano-diamantes se formam sob temperaturas muito altas e pressões consistentes com impactos cósmicos”, afirma Kennett. “Estes nano-diamantes até hoje foram encontrados tão somente em locais onde ocorreram impactos de meteoritos ou em crateras de impacto na Terra, o que parece ser o mais forte indicador da ocorrência de um impacto cósmico significativo [durante a era do povo de Clóvis]”.

A idade do evento também coincide com a extinção do mamute pigmeu nas Ilhas do Canal Norte, além de diversos mamíferos norte-americanos, incluindo até mesmo o cavalo selvagem [lembramos que o cavalo foi reintroduzido na América do Norte pelos Europeus no século XVI]. É sabido que 35 espécies de mamíferos de grande porte e 19 gêneros de aves foram extintos no fim do Pleistoceno.

Assim, as datas das extinções coincidem com a data proposta do impacto cósmico, reportado pela primeira vez em outubro de 2007 no PNAS.


Conclusão? O debate vai continuar…

A teoria do impacto do cometa enfrenta outras hipóteses existentes sobre as causas do cataclismo. O web-site pbs.org tem diversos artigos interessantes sobre as teorias que tentam explicar a extinção na América do Norte:

* The Extinction Debate por Evan Hadingham
* The Stoneage America’s Explores
* End of the Big Beasts por Peter Tyson [Who or what killed off North America's mammoths and other megafauna 13,000 years ago?]

A polêmica vai continuar ainda por algum tempo até que mais evidências sejam coletadas. Para apimentar a discussão, em janeiro de 2009 Dr. Sandy Harrison e colegas cientistas da Universidade de Bristol alegaram ter obtido provas contrárias a teoria da queda do cometa estudando os registros de carvão e pólen entre 15.000 e 10.000 anos atrás.

A hipótese cometária acrescentou mais uma peça ao quebra-cabeças, mas o tema ainda vai permanecer como um enigma a ser elucidado pelos incansáveis cientistas. Vamos acompanhar!

Em março de 2010 o Professor Napier reforçou a hipótese cometária alegando que não foi um objeto, mais um enxame de fragmentos cometários que caiu sobre a América do Norte provocando este cataclisma. Sua tese pode ser lida aqui.

Leia: Extinção em massa há 12.900 anos: a Terra foi atingida por um cometa? (parte 2)

 


Fontes e referências:

EurekAlert (julho de 2009): California’s Channel Islands hold evidence of Clovis-age comets [University of Oregon-led research team digs up strongest evidence yet for a controversial cosmic event]

Sciencemag: Nanodiamonds in the Younger Dryas Boundary Sediment Layer

National Geographic: “Nanodiamond” Find Supports Comet Extinction Theory

Science Daily:

* Extraterrestrial Impact Likely Source Of Sudden Ice Age Extinctions [At the end of the Pleistocene era, woolly mammoths roamed North America along with a cast of fantastic creatures – giant sloths, saber-toothed cats, camels, lions, tapirs and the incredible teratorn, a condor with a 16-foot wingspan]
* Did A Comet Hit Great Lakes Region, Fragment Human Populations, 12,900 Years Ago? [Two University of Oregon researchers are on a multi-institutional 26-member team proposing a startling new theory: that an extraterrestrial impact, possibly a comet, set off a 1,000-year-long cold spell and wiped out or fragmented the prehistoric Clovis culture and a variety of animal genera across North America almost 13,000 years ago]
* Exploding Asteroid Theory Strengthened By New Evidence Located In Ohio, Indiana [Geological evidence found in Ohio and Indiana in recent weeks is strengthening the case to attribute what happened 12,900 years ago in North America -- when the end of the last Ice Age unexpectedly turned into a phase of extinction for animals and humans – to a cataclysmic comet or asteroid explosion over top of Canada]
* 12,900 Years Ago: North American Comet Impact Theory Disproved [ScienceDaily (Jan. 27, 2009) — New data disproves the recent theory that a large comet exploded over North America 12,900 years ago, causing a shock wave that travelled across North America at hundreds of kilometres per hour and triggering continent-wide wildfires]

New Scientist: Did a comet wipe out prehistoric Americans? por Heather Pringle

(http://eternosaprendizes.com/2009/01/09/extincao-em-massa-ha-12900-anos-a-terra-foi-atingida-por-um-cometa/)
 

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