LULA LÁ, VENDO AS COISAS POR OUTRO ÂNGULO -- 18/01/2003 -

 

Quando uma coisa é muito repetida ela é aceita. Assim, após anos de repetição “Lula lá... brilha uma estrela...”, o Lula chegou lá; e impressionante é como é fácil passar para o lado de lá.

Parece-me que ouvi muitas vezes o Lula condenar o capital especulativo, as altas taxas de juros praticadas pelo seu antecessor, que tanto empobrecem a população. Assim que eleito, prometeu que manterá os juros autos o quanto for necessário para conter a inflação.

Não há muito tempo, análises de economistas petistas informavam que o deficit previdenciário do Estado não resultava do pagamento das aposentadorias, mas sim dos desvios de dinheiro para outros setores, além das apropriações tão comuns. Agora, não; é o pagamento aos aposentados do setor público que gera um grande rombo na Previdência, e, não obstante termos desconto sobre todos os nossos vencimentos (não só em parte como os empregados das empresas privadas), sua intenção é igualar os proventos.

Dizem juristas que “isonomia é tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais” . Os que têm desconto sobre uma fração do salário recebem proventos sobre uma fração do salário; mas os que têm desconto sobre todo o salário não podem ser considerados iguais àqueles: desiguais merecem ser tratados desigualmente. Mas isso aí é argumento antigo. Hoje ele está lá, no outro lado.

Isso já me faz lembrar a carta de VITÓRIO MEDIOLI:

“Companheiro, tu mudarás para o Palácio da Alvorada, despacharás no Planalto e terás um pelotão de gente para te servir.
Terás que parar de criticar o salário mínimo que a União pode pagar. Pela primeira vez a culpa de um mínimo de fome não será dos outros, será tua. E Paulo Paim deverá te defender do PFL que exigirá o mínimo do Dieese.
Se jogares pedras para o alto, cairão na tua vidraça. Exatamente tu deverás pagar aposentadorias que não sejam uma vergonha e sem estourar as contas públicas.
A tropa do Exército vai exigir o salário digno que prometeste. Os estudantes cobrarão que tu consigas vagas e transporte para cursarem universidades gratuitas como defendeste a vida toda. Terás que resolver o problema da moradia com a vara de condão e conceder os aumentos salariais que reclamaste aos patrões. Pois cuidado, tu serás o maior patrão deste país.
Precisarás convencer 300 deputados que chamaste de picaretas a votar as medidas necessárias ao país. E sentirás quanto é duro negociar apoios numa democracia. Sim, porque aqui não é Cuba.
Se tu deres calote, o país afundará; se honrar dívidas, não sobrará dinheiro. Já te explicaram isso? A ti, como presidente, será cobrada a solução, a competência, as obras, as metas, o superávit, a responsabilidade fiscal, os remédios de graça, as cotas para os negros.
Aos companheiros do MST deverás dar o que querem e se não deres Rainha e Stedile entrarão em teu gabinete de foice para te cobrar: "O que é isso, companheiro?". E com a CUT atenderás as reivindicações que têm o céu como limite?
Não será suficiente criticar o neoliberalismo, terás que arregaçar as mangas. Deverás dar crédito e subsídio aos produtores, aumento ao funcionalismo, incentivo a indústria, renegociar a dívida dos Estados e deixar de aplaudir o governador que dá calote à União.
Será teu o dever de evitar que os companheiros transformem a Polícia Federal numa Gestapo, o Banco do Brasil numa instituição de filantropia, o Serviço de Inteligência numa KGB, a Petrobras numa ação entre amigos. Deverás enfrentar estilingues traiçoeiros. E te prepara! O FMI tem bafo imperialista. Se foste coerente com os votos e programas de teu partido (que se calou na campanha eleitoral), terás que desmanchar o Fundef, a Lei de Responsabilidade Fiscal, o Plano Real, os acordos internacionais, as privatizações a que te opuseste (e foram todas elas). Terás que pagar valores dignos pelas consultas, internações, cirurgias, vagas em CTI.
Terás que pôr José Dirceu a negar asilo político aos terroristas, defender as fronteiras das Farc, evitar o desmatamento da Amazônia. Pregar a paz e a harmonia a companheiros que praticam insubordinação e greves.
Deverás exportar alimentos e soja mesmo com gente passando fome no Brasil e serás cobrado por esse absurdo como cobraste a outro presidente.
Terás que encontrar soluções, torcer pelo melhor e parar de badalar fracassos deste país. Tu sentirás quanto é duro apanhar da oposição, ter a obrigação de construir e debater com partidos que não colaboram, que não entendem que teu sucesso é o sucesso do país ou que pouco se importam com isso. Experimentarás aquela oposição tacanha, sem pressa, fisiológica, por vez, ideológica ou calculista que não quer te compreender, que te culpa sem razão, que te pinta de vendilhão, que não aponta solução, exatamente como tu fizeste mil vezes.
Que autoridade tu terás de reclamar dos outros? Terás que reprimir os esquemas como aquele de Santo André, lidar com propinas na Sudam, com superfaturamento de obras, com oligarquias empedernidas que te apóiam, mas te sugarão para garantir uma governabilidade que será um dever exclusivamente teu. Companheiro, tua vida vai mudar.
A ti pedirão cargos Quércia, ACM, Sarney, Maluf, Roseana e seu marido, Arraes, Brizola, Requião, Itamar, Ciro, Garotinho, o PCdoB, o PL, a CUT, o MST. Terás que acender velas para todos eles e a outros ainda para ter maioria no Congresso. Tu terás que te virar com eles.
A alta do dólar, a inflação, a estabilidade, a credibilidade internacional, o crescimento da produção serão problemas da tua alçada que o mundo te cobrará a cada dia como tu sempre cobraste. Não poderás acusar ou sair pela tangente. Acusar a quem? Sair por onde? Tudo estará em tuas mãos; faca, queijo e vontade de comer. Tu sempre disseste que tudo era fácil, terás que demonstrá-lo.
Não outro, mas tu terás a responsabilidade de manter as contas em dia, combater a dengue, os buracos nas rodovias, as filas nos hospitais, a pobreza, a criminalidade, os laboratórios, o desemprego, a fome, a seca no Nordeste, o pedágio nas rodovias, o narcotráfico, as enchentes no Sul, o apagão, a alta do petróleo, o aviltamento do preço do café, as pragas do cacau, o valor ridículo do leite, as crises internacionais. Tu deverás cobrar as prestações da casa própria, a CPMF, o PIS, a Cofins, o ITR, o IRPF, o IRPJ e assistir a oposição usando os argumentos que foram teus nos últimos vinte anos. Sem títulos de estudo, sem outra experiência administrativa, deverás governar 170 milhões de vidas e mostrar competência, pois todos estarão de olho em ti. E tu não és unanimidade, alguns te acham um santo corajoso e outros um cara-de-pau.
A história em breve te julgará. Por isso te desejo muita sorte. A tua sorte amanhã se confundirá com a do Brasil, com aquela das novas gerações, das pessoas que amamos. Mas lembra-te, se tuas promessas eram ditadas pela irresponsabilidade, ninguém te perdoará.
Tu, companheiro, deverás ter pernas, força, moral, diplomacia, sabedoria, competência para segurar este país, sem conversas fiadas, sem acusações, sem demagogia. Outros apontarão a ti defeitos. Tu terás o dever de dar certo.
Fernando Henrique estará de pijama e tu com uma caneta que pesa mais que um milhão de enxadas.”

Agora, ele, o Presidente Lula, não deve estar enxergando o mundo diferente de seus companheiros fernandos.



Prossiga com LULA LÁ... II - O ESTELIONATO ELEITORAL


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