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PACTO MORTAL

13/01/2010

"O bareback, prática do sexo sem camisinha para contrair o HIV, encontra adeptos no Brasil, inclusive com site para encontros

Celina Côrtes
 

Enquanto a humanidade luta em várias frentes para deter a Aids, um grupo cada vez maior de homossexuais rema contra a maré num movimento suicida e alarmante. A onda se chama bareback. Propõe relações sexuais sem o uso de preservativos. A prática, segundo adeptos, chega agora ao Brasil depois de conquistar milhares de gays nos Estados Unidos e na Europa. Os motivos que levam os homens ao bareback – ou montar a cavalo sem sela – é a busca mais livre do prazer. Alguns consideram excitante o risco de contrair o HIV. A outra razão é ainda mais espantosa: há participantes que desejam se infectar com o vírus da Aids – e agem com esse objetivo.

A internet tem sido o principal ponto de encontro dos praticantes no Brasil. Lucas, 40 anos, gerente do site brasileiro BarebackBr, criou um grupo virtual e diz que, por enquanto, só existem reuniões isoladas, nada com organização. Assim como acontece entre os americanos e europeus, segundo o raciocínio de Lucas, os brasileiros não gostam de gays afeminados. “Sexo sem camisinha é coisa de macho”, prega ele, soronegativo e sem parceiro fixo. Pelo que dizem os adeptos brasileiros, os que desejam contrair o HIV são minoria. “O intuito do bareback é fazer sexo sem barreiras. Pode-se dizer que grande parte dos grupos de discussão se limita a trocar fantasias”, diz Renato (nome fictício), publicitário, 27 anos.

Realidade – Para Renato, os seguidores dessa “filosofia” jogam de uma forma aberta quanto à condição de soropositivos ou negativos. “Logo, sexo bareback só é praticado entre dois ou mais parceiros positivos, ou dessa forma entre os negativos”, acrescenta. Embora Sebastião (nome fictício) não mencione sua participação em festas, admite que já se relacionou muitas vezes sem preservativo, após descobrir ser soropositivo em fevereiro. Membro do BarebackBr, ele não sabe explicar por que aderiu à prática, mesmo contaminado. “No começo talvez fosse para fugir da realidade. Hoje pratico pelo simples tesão. É gostoso ouvir do parceiro que ele quer receber meu esperma”, conta ele. Ele nunca indagou ou foi indagado se era positivo.

O carioca Marcos (nome fictício), tradutor, 35 anos, começou a vida sexual com mulheres. Suas namoradas tomavam pílulas e ele não usava camisinha. Quando assumiu a homossexualidade, tinha um namorado e não se protegia. Depois, passou a variar os parceiros e a usar preservativos. Só que este ano Marcos aderiu ao bareback. “Prefiro sexo sem camisinha. Muitas vezes fico num dilema: sei dos riscos de contaminação pelo HIV e não desejo me ‘converter’, como eles usam no jargão”, explica. Por isso, só pratica com amigos que também não gostam dos preservativos e se dizem negativos, como ele. “Não consigo abandonar o bareback e tento reduzir o risco me mantendo fiel a esse pequeno grupo de amigos”, pondera.

Mais impressionante é a entrevista que o canadense Phil deu ao site da rede de comunicações canadense CBC, sob o sugestivo título de “Roleta-russa”. Ele confessa que vai se sentir feliz e celebrar quando contrair o HIV. “Nesse dia certamente vou sair e me oferecer um ótimo jantar.” Como costuma encontrar muitos internautas interessados em soropositivos, acredita que dessa forma vai aumentar seu círculo de amizades. Além de já ter se relacionado sexualmente “sete ou oito” vezes com soropositivos, Phil chega ao cúmulo de injetar sangue contaminado pelo HIV no próprio corpo. Embora tenha se submetido a um teste em junho, até agora não conseguiu contrair o vírus. Justifica seu macabro desejo com argumentos suicidas: “Sou gay, solteiro e minha família não me aceita. Não quero ser um velho e morrer sozinho. Então seria bom ficar positivo logo.”

Cláudio Nascimento, presidente do Arco-íris, um dos mais engajados grupos homossexuais do Rio de Janeiro, que já distribuiu 1,5 milhão de camisinhas em dez anos, conhecia a prática no Exterior, mas soube por ISTOÉ sobre a onda no Brasil. Só o site BarebackBr já reúne 349 participantes. Nascimento acredita que há entre os gays uma ilusão de que o sistema de saúde esteja preparado para lidar com a epidemia. Marcos, o barebacker carioca, atribui o aumento da prática a um motivo simples e assustador: “Com os remédios, muitos relaxaram nos cuidados. Acham que, ao se contaminar, é só tomar o coquetel para levar uma vida normal.”

Suicida – A psicóloga e sexóloga paulista Maria Cristina Martins, 44 anos, vê vários fatores que originam esse comportamento. Um deles, paradoxalmente, é o medo de contrair o HIV com o seguinte raciocínio: “Vou pegar de uma vez e acabar com essa ansiedade.” Outras razões são a sensação de isolamento, os problemas emocionais e a falta de informação. “É um comportamento suicida, como se fosse um pacto com a morte”, diz Maria Cristina. Uma das soluções apontadas por ela para evitar que os homossexuais sejam empurrados para esses grupos seria a aprovação da lei de parceria civil entre gays. “Muitos querem um relacionamento de papel passado e se frustram. Acabam desequilibrados por não colocar em prática seu lado afetivo.”

No Brasil, 23% dos casos de soropositivos registrados até 2001 eram de homossexuais e bissexuais, segundo o Ministério da Saúde. Estima-se que, dos cerca de 600 mil brasileiros infectados pelo HIV, aproximadamente 111 mil sejam homossexuais. Na campanha lançada em julho pelo governo para incentivar o uso do preservativo entre “homens que fazem sexo com homens”, nada foi mencionado sobre bareback. Os responsáveis pelo Programa Nacional de Aids do Ministério sabem da existência da prática fora do País, mas nada foi estudado no Brasil. “Não verificamos uma magnitude que chamasse a atenção pela via dos grupos gays organizados. Mas poderemos inserir o tema nas próximas intervenções”, diz o psicanalista Raldo Bonifácio Costa Filho, coordenador adjunto do programa. Antes que seja tarde." (Istoé, Edição: 1719, 06.Set/2009)

 

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