POBRE SALOMÃO -- 25/04/2001

Diz a Bíblia que Salomão, em lugar de desejar riqueza, a morte dos inimigos, ou longevidade, escolheu sabedoria. Vê-se que já era inteligente. Com o conhecimento, ficou riquíssimo, viveu bastante e, pouco a pouco, eliminava seus inimigos. Mas acho que, se Salomão estivesse hoje vendo o que se passa no mundo, como muita gente imagina que esteja, ele teria inveja até de mim, que não sou rico.

Pobre Salomão! Não tinha luz elétrica. Para não ficar no escuro à noite, precisava daquelas candeias alimentadas de azeite, que devia ter um cheirinho um pouco desagradável.
Quando queria passear, não tinha automóveis, precisando suportar aquele cheiro de cavalos, os únicos motores que se conheciam. Uma sorte, entretanto, ele teve: não precisou respirar fumaça de cigarro. Até na inauguração de seu reinado, Salomão montou uma mula, o transporte mais interessante que deveria ter. Será que ele gostaria de ter uma bicicleta?

Nem um álbum de família o proverbioso pôde deixar para vermos se sua formosa Abisague foi realmente bela. Seria uma morena escultural como a Tiazinha? Como a Scheila Carvalho? A Patrícia França? Certamente não era uma loira maravilhosa como a Eliana, a Patrícia de Sabrit, Sheila Mello, ou a Joana Prado.

Ele devia ter um apetite sexual de causar inveja aos leões. Mil mulheres! Ou isso seria só para aparecer? Existem esses tipos por aí.

O famoso monarca tinha em seu reino cantores e instrumentistas. Mas acho que nem uma como a bela Vanessa Mae com seu violino. Nem um Richard Clayderman com seu piano. Ah, pudesse ele ter um CD do Brian Adam, para ouvir “Strait from the heart” ou “(Everything I do) I do it for You”!

Salomão não podia ver nem ouvir, como eu posso, o que está se passando lá do outro lado da Terra. Muito menos tinha um videocassete para rever várias vezes tantas coisas lindas que sempre gravamos hoje. Nem mesmo um gravadorzinho para imortalizar seus sábios discursos.

Por falar eu sábios discurso, acho que os discursos dele não impressionavam tanto com se diz: parece que as pessoas estrangeiras que foram conhecer a sabedoria dele ficaram decepcionadas; porque nunca se encontrou entre outros povos um registro a respeito de Salomão. Parece que só o povo dele é que admirava muito o que ele fazia e dizia.

Quanta gente do mundo artístico posso ver dentro da minha casa hoje, sem precisar pagar-lhes por esse trabalho! E o sábio rei de Israel não tinha esse privilégio, posto que tivesse a melhor posição econômica da época, segundo diz a Bíblia. Com toda sua sabedoria, ele não tinha os conhecimentos geográficos que tenho sem sair do meu país. Nem sabia que a Terra é redonda e pensava que o sol caminhasse de uma a outra extremidade do céu, como escreveu seu pai, Davi.

O que não fazem as mulheres, hein! O grande sábio, por causa delas, desviou-se de seus princípios de fé, passando a adorar os deuses em que elas acreditavam. Que grotesco! Não; pensando melhor, não é tão ridículo: a essa altura, o coitado já deveria estar um pouco caduco, o que justifica sua mudança de adoração. E nem me parece tão grave o que ele fez na velhice; pois, se ele não tinha nenhuma prova da autenticidade dos deuses de suas mulheres, o Deus de Israel também só lhe era conhecido em sonho. É verdade que ainda não havia nascido o Dr. Sigmund Freud para lhe explicar que o que sonhamos é apenas imagem formada na nossa mente. Assim não era tão absurdo acreditar que tudo que vemos em sonho é real. Ademais, o seu mundo era muito mais cheio de mistérios do que o nosso.

Pensando em todas essas coisas, eu não gostaria jamais de ter vivido naquela época. Não tenho um milheiro de mulheres, quase nada tenho de ouro, não sou considerado um grande sábio, mas tenho motivos para sentir-me mais afortunado do que Salomão. (Em "Histórias, Estórias, etc.")

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