QUANTO VALE UMA MULHER?

"Quanto vale uma mulher?

Futuras gerações devem deixar aparência de lado e investir em capitais duradouros, como educação, profissão, relacionamento com os amigos, autoconhecimento e no próprio prazer

Déa Januzzi

Marcos Michelin/EM/D.A Press

Nada mais me assusta. Cada um deve se comportar como quiser - Neuza Huebra de Souza Netto, de 84 anos, dona de casa

A frase mais revolucionária do século 20 para a socióloga Rosiska Darcy de Oliveira, de 60 anos, sem dúvida é: “O meu corpo me pertence”, dita por uma mulher. Depois da pílula anticoncepcional, quebra-se um paradigma milenar que separava o mundo dos homens e das mulheres e estabelecia uma hierarquia. “No momento em que começam a ter recursos próprios e a saber que o corpo lhes pertence, as mulheres mudaram a face do mundo”, assegura.

Para ilustrar o clima da época em que a opressão era companheira das mulheres, Rosiska conta: “Eu era estudante de direito e, um belo dia, um professor chegou à sala de aula com o discurso de que ia ler um texto muito bom sobre Antígona, de Sófocles. A nota que ele tinha dado ao texto era 10, mas gostaria que os alunos adivinhassem quem o tinha escrito. A turma inteira falou o nome de todos os alunos presentes, menos o meu, que era a autora do texto. O professor, então, disse que os barbados deveriam se envergonhar porque foi a meninota no canto da sala (Rosiska) a responsável. Todos ficaram intrigados de como uma mulher poderia fazer um trabalho melhor do que o deles. Agradeci, mas recusei a nota 10 e nunca mais voltei àquela faculdade. A partir desse dia me tornei feminista, para resistir à opressão”, explica.

Nas ruas, além de expulsas dos bares, as mulheres aprendiam a baixar os olhos quando cruzavam com um homem, “pois poderia parecer que elas estavam olhando para provocar”. Era assim. No tempo de Rosiska, as mulheres não tinham direito de ir e vir, acesso ao conhecimento, ao mercado de trabalho e à sexualidade.

 

Quem viveu antes de Rosiska sabe como as mulheres foram reprimidas durante muito tempo. Neuza Huebra de Souza Netto, de 84 anos, se casou com 17 anos e 8 meses com um médico recém-formado que chegou a sua cidade, Lajinha, para montar uma clínica. Ele não só foi seu primeiro e único namorado, como ficou casada com o clínico-geral Langlebert de Souza Netto por 60 anos, até que a morte o levou, em agosto de 2002.

Viúva aos 76 anos, com cinco filhos, Neuza conserva a beleza da juventude. Os cabelos brancos emolduram o rosto e destacam os olhos verdes. Vaidosa, ela acostumou a se aprontar para o amado desde os tempo de namoro, com roupas bem-feitas, colares de pérolas e brincos de ouro. “Namoramos oito meses, mas não era igual a estes namoros de hoje não. Eu ficava de um lado e o Laliu”, apelido que ele dá ao marido, “de outro. Beijinho era só corrido e tudo escondido. Eram mãos dadas e olhe lá!”

Neuza votou pela primeira vez depois de casada, quando o marido foi candidato a prefeito de Lajinha. Ela nunca trabalhou, mas depois de um tempo de casada, em que mostrou todos os seus dotes ao marido, de saber lavar, passar, cozinhar, teve permissão para contratar uma empregada doméstica. Ciumento, o marido não a deixava chegar nem mesmo à janela do sobrado em que moravam. “Ele tinha ciúme até da minha alma. Como não gostava de carnaval, um dia pedi ao meu pai para me levar ao clube, ao que me perguntou se já tinha pedido permissão ao meu marido. Pedi, só depois então meu pai me levou.”
 

Arquivo Pessoal

Rosiska de Oliveira ressalta que desafio é enfrentar novas definições do feminino

PARTEIRA Ela teve os cinco filhos de parto normal, sob os cuidados de uma parteira da região, que quando ouviu o barulho do primeiro avião que passou pela cidade disse que o mundo estava acabando. Todas as notícias chegavam pelo rádio, que era de um tamanho tão grande que parecia uma televisão de 20 polegadas de hoje. Dona Neuza se divertia com os capítulos de O direito de nascer. Quando a televisão chegou não perdia as novelas, como O sheik de Agadir, com Yoná Magalhães e Marieta Severo, o Repórter Esso, com Eron Domingues, os programas Papai sabe tudo e O vigilante rodoviário.

Considerada pelos filhos e netos e bisnetos como uma mulher moderna, Neuza garante: “Nada mais me assusta. Cada um deve se comportar como quiser”. E a neta Bárbara, que mora com a avó, diz que ela é demais: “Convive com todos os meus amigos, não critica por eles serem diferentes e gosta muito de conversar. Apesar de não saber usar o computador, acha incrível como um e-mail chega do outro lado do mundo na mesma hora”.

Neuza adora viajar e se encontrar com as cinco irmãs que são viúvas, sendo que a mais nova está com 70 anos. “Quando nos encontramos, a gente nem dorme. Dançamos, conversamos, tomamos vinho e cantamos a noite toda, porque na vida a gente tem que se adaptar a tudo. Sou velha sim, mas não sou chata”, admite.

Virgindade, separação conjugal, calça comprida, beber e fumar, e fazer sexo com quem desejar foram tabus que a geração de Neuza não conseguiu derrubar: “Conviver com mulher separada era como estar com uma doença contagiosa, mesmo se ela fosse amiga da gente antes. Graças a Deus que as coisas mudaram”.

<Estado de Minas, 07/03/2010>

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