O AVANÇO DO ATEÍSMO COM O CONHECIMENTO

Deus não existe!

Oziel Alves

Até meados do século 19, toda a humanidade acreditava na existência de um “deus”, exceto pequenos grupos intelectualizados reconhecidos por serem adeptos da teoria do livre-pensar, uma ideologia ceticista que ganhou notoriedade durante o período renascentista – final do século 13 – e espalhou sua influência por todo o mundo. Nessa época, a ciência dava os primeiros passos rumo às grandes descobertas científicas, porém sua atuação era limitada e freqüentemente censurada pelo poder da Igreja. Em 1616, quando Galileu Galilei provou ao mundo que a Terra girava em torno do sol – ao contrário do que estava escrito na Bíblia – sob ameaça de morte, o cientista fora induzido a se retratar. Sua descoberta era considerada incrédula. O poder político-eclesiástico não admitia contradições em relação aos textos bíblicos e ser cristão era praticamente uma imposição. O indivíduo que quisesse assumir publicamente oposição aos ensinamentos da Igreja, de antemão sabia: seria recriminado pelo governo e pela sociedade com acusações de incredulidade, rebeldia, libertinagem e desonestidade. Para manter a boa imagem, era preferível não admitir tal posicionamento.

Mas a situação começou a mudar. Logo depois que Charles Darwin apresentou a Teoria da Evolução em 1859, a ciência – que já deflagrara conflitos com a religião – passa abertamente a duvidar de Deus. A sociedade influenciada inicia um processo de confronto entre as evidências científicas e os dogmas religiosos. Surge o primeiro crescimento ostensivo do ateísmo no mundo. Anos mais tarde, em 1882, o filósofo ateu Friedrich Nietzsche (1844–1900) sinaliza este crescimento com a célebre frase publicada em Gaia Ciência: “Deus está morto! [...] e quem o matou fomos nós!”. O aforismo repercute internacionalmente e logo se inicia o movimento racionalista do século 19, cuja principal característica, do ponto de vista religioso, foi a desvalorização da fé.
 

No século 20, o humanismo, impulsionado pela Revolução Industrial e pelo desenvolvimento capitalista, substitui o racionalismo, mas a fé continua sendo considerada alienação. O mundo avança rumo ao progresso e a sociedade se distancia ainda mais de Deus. O ateísmo deixa de pertencer somente às classes intelectuais, influencia as correntes filosóficas, os movimentos político-sociais como o liberalismo, a democracia, o anarquismo, o socialismo, e se infiltra fortemente, também, entre os grupos populares.

Assim, por mais de 200 anos, o ateísmo tem conquistado um montante cada vez maior de adeptos, sobretudo entre os países socioeconomicamente mais evoluídos. Estima-se que haja atualmente no mundo cerca de 750 milhões de pessoas que não acreditam em Deus. Um grupo que ocupa a 4ª posição no ranking composto pelo cristianismo, em primeiro lugar, com 2 bilhões de fiéis (considerando-se católicos, protestantes, anglicanos, luteranos, ortodoxos, além de mais de 39 mil tipos de denominações em 238 países)*, seguido pelo islamismo – a religião que mais cresce – com 1,2 milhão de seguidores, e o hinduísmo, com 900 milhões de praticantes.

Segundo o teólogo e escritor Russel Shedd, PhD em Novo Testamento pela Universidade de Edimburgo, na Escócia, os números tendem a crescer ainda mais, sobretudo entre os países mais ricos. “Vai-se viver como se Deus não existisse. Isso não quer dizer que todo o mundo está se tornando ateu, mas há uma modernização. As pessoas têm o que desejam: emprego, família bem cuidada, plano médico etc., quer dizer, supostamente não precisam de nada, nem de Deus”.

O diretor do Instituto World Values Surveys e cientista político da Universidade de Michigan, Ronald Inglehart, concorda com esse argumento e diz que nas sociedades caracterizadas pela carência na distribuição de alimentos, precariedade nos serviços públicos de saúde, de moradia etc., o índice de religiosidade tende a aumentar. Por outro lado, em nações onde há fartura e excelentes serviços nas áreas citadas, a fé tende ao desaparecimento. A hipótese já defendida pelo filósofo ateu Karl Marx, em 1843, isto é, que o sofrimento produz religiosidade e a fartura o distanciamento de Deus, hoje pode ser visto quantitativamente através de pesquisas realizadas por sociólogos em todo o planeta. Começando pela Europa – berço da civilização cristã – passando pelas Américas, África, Ásia e Oceania, é possível conectar os fatores lógicos da relação “fé versus desenvolvimento” aqui apresentadas.


Acir Raymann, mestre em Antigo Testamento: "Ainda hoje, Deus permite que catástrofes aniquilem com a vida de massas humanas"


 

PANORAMA GLOBAL DO ATEÍSMO
 

Na Europa

O continente que um dia foi luz para o mundo, região de onde por mais de um milênio o Evangelho foi propagado às nações, hoje caminha rumo à escuridão da fé. Segundo o Centro de Treinamento Cristão European Apologetics Network, de Londres, “somente na Europa, nos últimos 100 anos, o ateísmo cresceu de aproximadamente 1,7 milhão para cerca de 130 milhões de pessoas”. De acordo com a obra Religião na Europa no Final do Segundo Milênio, publicada em 2003 pelo padre Andrew Greeley, jornalista, autor de 50 best-sellers e professor de Ciências Sociais das Universidades de Chicago e do Arizona, “só entre os britânicos, 31% das pessoas declararam não acreditar em Deus”. Um ano depois, a BBC de Londres encomenda outra pesquisa sobre o mesmo assunto e revela um novo recorde: o índice subira para 44%.


Mark Carpenter, mestre em Letras Modernas pela USP e presidente da Editora Mundo Cristão, sinaliza que a relevância da obra de Dawkins está diretamente ligada ao pós-11 de setembro

Quando entrevistado pelo jornalista Dale Hurd para a CBN News, o escritor Richard Miniter (correspondente do jornal inglês The London Sunday Times em Bruxelas, na Bélgica) declarou: “Quando você diz aos europeus que vai à igreja aos domingos, as pessoas o olham como se fosse uma peça de museu. Lá, apenas 5% da população freqüenta cultos regularmente e, deste percentual, 3% são negros, um índice elevado da população afro, considerando que apenas 5% da sociedade européia é de origem negra”.

Pastor Paul Devos, do Centro Cristão das Assembléias de Deus na Bélgica, em resposta à mesma reportagem, afirma: “Aqui na Europa, as pessoas não esperam nada da religião. Eles acreditam que para esta vida não há nenhuma esperança a ser encontrada na igreja. Não podemos sair tocando a campainha da casa das pessoas, porta a porta, tentando alcançá-las. Elas não acreditam mais em nós”. Desse problema, o renomado escritor inglês C.S.Lewis já estava ciente há algumas décadas. Ele costumava dizer: “Se desse a um transeunte em Londres a opção entre uma refeição num bom restaurante e a garantia de chegar ao céu, seguramente ele escolheria a refeição”.


Para Valtair Miranda, mestre em Ciências da Religião, a atitude de Dawkins é limitada por vários aspectos: “O fenômeno religioso é impossível de ser esgotado por um único método de análise”

Frente ao declínio massivo da fé, Miniter desabafa: “A perda da fé, na Europa, é como uma estrela negra, invisível, que ainda possui uma tremenda força gravitacional. Eles não entendem por que a cultura deles está falindo. Eles não entendem por que os índices de divórcio e suicídio são tão elevados. Eles não entendem por que tão poucas mulheres européias têm mais de um filho e por que, na maioria das ruas, você vê mais cachorros do que crianças. Esse é o impacto da morte da fé na Europa”.

Peter Kerridge, diretor geral da rádio premier do Reino Unido, se opõe à idéia de falência. Para ele, não importa quantas manchetes saiam dizendo que a Igreja está morta. A verdade é que ela nunca morrerá. Ele se refere ao aumento de 18% da população cristã entre as igrejas pentecostais de membresia tipicamente afro, nos últimos 5 anos, em Londres.

No mundo

Outros dados surpreendentes sobre o crescimento do ateísmo no mundo também foram revelados por Phil Zuckerman, PhD em Sociologia da Religião, pesquisador e professor da Pitzer College de Claremont, Califórnia, EUA. Seu artigo, publicado na obra Contemporary Atheism: Rates and Patterns, editada por Michael Martin e impressa pela Universidade de Cambridge no final de 2006, mostra a lista das 50 nações com maior porcentagem de pessoas que se intitulam atéias, agnósticas ou que simplesmente declararam não acreditar em Deus. Apesar da margem de erro em alguns casos ser bastante elevada, as porcentagens apresentadas revelam um verdadeiro apagão da fé entre os mais abastados do globo. Suécia (85%), Vietnam (81%), Dinamarca (80%), Noruega (72%), Japão (65%) e República Checa (61%) respectivamente, encabeçam a lista, seguidos por Finlândia (60%), França (54%), Coréia do Sul (52%), Estônia (49%), Alemanha (49%), Rússia (48%), Hungria (46%), Holanda (44%), Inglaterra (44%) etc. Todos esses países possuem alta renda percapita, exceto o Vietnam, onde o ateísmo não é orgânico, mas coercivo, isto é, imposto ou induzido pelo regime político ou religioso. Essa situação é encontrada também nos países do continente asiático – o mais populoso do mundo –, na Oceania e no Oriente Médio.


Para Richard Dawkins, o criacionismo está formando uma geração fundamentalista de cristãos alienados


Na África

Nas 48 nações do continente africano, sem contar as ilhas, a situação é completamente diferente. Países como Argélia, Benin, Botsuana, Burquina Fasso, Burundi, Camarões, Chadi, Etiópia, Gâmbia, Gana, Quênia, Libéria, Líbia, Madagascar, Mauritânia, Marrocos, Senegal, Serra Leoa, Somália, Sudão, Tanzânia, Togo, Tunísia, Zimbábue e Zâmbia, entre outros, mostram índice de ateísmo inferior a 1%. Essas nações estão entre as mais pobres do planeta. Lá, a renda per capita é insignificante e a maioria da população vive abaixo da linha da pobreza, isto é, com menos de 1 dólar por habitante, ao dia.

Nas regiões mais desenvolvidas do continente, como a África do Sul, por exemplo, as condições de vida melhoram e o índice de ateísmo volta a sofrer elevações, chegando a 11%. Apesar disso, o país tem cerca de 79% de sua população declaradamente cristã. Um panorama otimista.

Na América Latina

Na América Latina, região formada por 20 países tipicamente de Terceiro Mundo, ou em desenvolvimento – incluindo o Brasil –, os índices de ateísmo permanecem baixos, variando de 1% a 3%, exceto em Cuba, México (7%), Argentina (8%) e Uruguai, com cerca de 12% de sua população ateísta e, entre 30% e 50%, assumidamente sem religião.


Outros países onde o ateísmo é inferior a 1%
Além das nações já mencionadas, há outras dezenas onde o ceticismo não chega a 1%. Como exemplo podemos citar: Azerbaijão, Geórgia, Indonésia, Bangladesh, Brunei, Tailândia, Sri Lanka, Irã, Malásia, Nepal, Afeganistão, Paquistão. No entanto, lá o cristianismo não tem presença marcante. As religiões predominantes são islamismo, hinduísmo, budismo etc.

ATEÍSMO VERSUS FÉ

Nunca houve tantos ateus no mundo como na atualidade. No entanto, enquanto a maioria dos países ricos elevam seus índices de ateísmo, globalmente a ideologia cética tende à diminuição. A razão disso é o significativo aumento do evangelismo entre as nações menos desenvolvidas. Ao contrário do que disse Nietzsche, isto é, “Deus está morto”, para os latino-americanos Ele nunca esteve tão vivo.

De acordo com Oscar Corvalán-Vásquez, professor da Universidade Pública do Chile e PhD em Sociologia pela Universidade de Toronto, “as projeções para os próximos 20 anos indicam que o número de cristãos nos EUA deve aumentar em 43 milhões. No México e no Brasil, cerca de 47 milhões. Na América Latina, o crescimento deve dobrar em relação ao Canadá e aos EUA. Na Rússia, a situação deve permanecer estável, porém, na Alemanha, haverá uma redução significativa. Isso significa que em 2025 ela não fará mais parte das 10 maiores nações cristãs do mundo. No continente africano, o crescimento deverá ser superior aos 100 milhões de novos convertidos, sendo Nigéria e República Democrática do Congo responsáveis por 72% deste montante. Mais surpreendente ainda será a elevação do cristianismo na Ásia. China, Índia e Filipinas, juntas, devem somar 124 milhões de novos adeptos”.

Segundo Vásquez, sua análise intitulada “Os pentecostais e o ecumenismo: uma perspectiva latino-americana”, fora apresentada ao Conselho Mundial de Igrejas na Suíça.

20 NAÇÕES COM OS MAIS ELEVADOS ÍNDICES DE ATEÍSMO
 


 

País
 

População
 

Ateístas + Agnósticos – Máx.
 

1
 

Suécia
 

8,986,000
 

85%
 

2
 

Vietnam
 

82,690,000
 

81%
 

3
 

Dinamarca
 

5,413,000
 

80%
 

4
 

Noruega
 

4,575,000
 

72%
 

5
 

Japão
 

127,333,000
 

65%
 

6
 

República Tcheca
 

10,246,100
 

61%
 

7
 

Finlândia
 

5,215,000
 

60%
 

8
 

França
 

60,424,000
 

54%
 

9
 

Coréia do Sul
 

48,598,000
 

52%
 

10
 

Estônia
 

1,342,000
 

49%
 

11
 

Alemanha
 

82,425,000
 

49%
 

12
 

Rússia
 

143,782,000
 

48%
 

13
 

Hungria
 

10,032,000
 

46%
 

14
 

Holanda
 

16,318,000
 

44%
 

15
 

Grã-Bretanha
 

60,271,000
 

44%
 

16
 

Bélgica
 

10,348,000
 

43%
 

17
 

Bulgária
 

7,518,000
 

40%
 

18
 

Eslovênia
 

2,011,000
 

38%
 

19
 

Israel
 

6,199,000
 

37%
 

20
 

Canadá
 

32,508,000
 

30%
 

Fonte: Atheism: Contemporary Rates and Patterns

MOVIMENTO EM PROL DO ATEÍSMO NO MUNDO

Quem está inconformado com a perspectiva de crescimento global da fé é o cientista britânico Richard Dawkins, 65 anos, biólogo, evolucionista, professor da Universidade de Oxford e, certamente, o ateísta mais conhecido da atualidade. Para ele, o século 21 deveria ser conhecido como a era da razão, “mas a fé militante irracional voltou a marchar rumo à alienação”, diz o autor. O que para os cristãos é uma boa notícia, para Dawkins tem sido um verdadeiro pesadelo. Diante desse fato, o intelectual lança, através dos meios de comunicação, uma cruzada internacional simbólica contra a fé em Deus, em prol do extermínio das religiões e a favor da multiplicação do ateísmo.

Dawkins se notabilizou como defensor ferrenho do ateísmo no ano de 1976 por ocasião do lançamento de seu primeiro best-seller intitulado O Gene Egoísta. Nessa obra, o cientista introduz na ciência o conceito de MEME (unidade de informação cultural que passa de uma mente para outra), uma alusão às influências ideológicas transmitidas pelo ser humano às outras pessoas, como por exemplo o evangelismo cristão. Depois disso, Dawkins lança outros seis livros tratando de temas controversos à fé, entre eles O Fenótipo Estendido, O Relojoeiro Cego, O Rio que Saía do Éden, A Escalada do Monte Improvável e Desvendando o Arco-íris.

10 MAIORES NAÇÕES CRISTÃS (PROJEÇÃO para 2025 e 2050)

 


 

HOJE
 

Milhões
 

2025
 

Milhões
 

2050
 

Milhões
 

EUA
 

252
 

EUA
 

295
 

EUA
 

329
 

Brasil
 

167
 

Brasil
 

193
 

China
 

218
 

China
 

111
 

China
 

173
 

Brasil
 

202
 

México
 

102
 

México
 

123
 

Congo
 

145
 

Rússia
 

85
 

Índia
 

107
 

Índia
 

137
 

Filipinas
 

74
 

Filipinas
 

97
 

México
 

131
 

Índia
 

68
 

Nigéria
 

95
 

Nigéria
 

130
 

Alemanha
 

62
 

Congo
 

91
 

Filipinas
 

112
 

Nigéria
 

61
 

Rússia
 

85
 

Etiópia
 

104
 

Congo
 

53
 

Etiópia
 

67
 

Uganda

95
 

Fonte: World Christian Database

 

No final de 2005, a TV Channel 4 da Inglaterra convida o biólogo para a produção de um documentário crítico às religiões no mundo. Dawkins aceita o desafio e, em janeiro de 2006, o programa intitulado “A Raiz de Todos os Males?” (dividido em duas partes – “A Desilusão de Deus” e “O Vírus da Fé”) é transmitido em horário nobre para todo o Reino Unido. O programa é um sucesso de audiência, apesar das muitas críticas ao fato de Dawkins ter dado voz a extremistas religiosos, tanto do islã quanto do judaísmo. A proposta, no entanto, era realmente esta: chocar os telespectadores, mostrando que as religiões formam a raiz dos conflitos mais violentos do mundo. Aproveitando a esteira de visibilidade que o documentário lhe proporcionou, Dawkins utiliza o programa como piloto e lança seu 8º livro chamado The God Delusion, um manifesto ateísta, polêmico, repleto de afrontas e acusações às religiões, sobretudo ao cristianismo, onde o autor pretensiosamente promete convencer o leitor de que “Deus é um delinqüente psicótico inventado por pessoas maldosas”; que “a religião, além de ser infantil e irracional, é um insulto à dignidade humana, uma vez que ensina seus seguidores que é uma virtude se satisfazer com o não-entendimento”; que “a fé é o processo de não pensar”, dentre tantas outras objeções blasfemas. “Se este livro funcionar como eu pretendo, leitores religiosos que o abrirem se tornarão ateístas quando o terminarem de ler”, diz o polemista.

“É chegada a hora de as pessoas raciocinarem e darem um basta nisso. [...] Os homens-bomba estão convictos de que, matando para o deus deles, serão levados a um paraíso especial para mártires. No entanto, este não é só um problema do islamismo, mas um mal que atinge igualmente todas as crenças”. Para ele, até mesmo aquelas religiões que parecem inofensivas, como por exemplo o catolicismo, são responsáveis pela morte de tantas vidas quanto o islã. “O que dizer sobre o desencorajamento do papa ao uso da camisinha na África ou a ‘linha direta’ entre Bush e Deus se os custos disso são igualmente vidas humanas?”.

Para Valtair Miranda, mestre em Ciências da Religião e coordenador de Teologia do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, a atitude de Dawkins é reducionista, limitada por um ou mais aspectos. “O fenômeno religioso é impossível de ser esgotado por um único método de análise. Há algo nele fora dos limites da compreensão humana. Marx e Freud foram os grandes exemplos disso. O primeiro compreendeu que é o estado e a sociedade que produzem a religião. O segundo, que a religião era fruto de uma neurose inconsciente, reprimida, desejante do pai-que-tudo-resolve. É verdade que em alguns contextos a religião veio a ser realmente isso. Mas ela nunca foi apenas isso. Ela é muito mais do que isso. Vê-la apenas dessa forma é ignorar todas as outras manifestações desse fenômeno enormemente plural”.

Um dos principais pilares da pregação ateísta de Dawkins é que a religião, seja ela qual for, gera violência direta ou indiretamente. E talvez aí esteja o principal triunfo de sua obra, uma vez que ela não traz nenhuma novidade em relação a qualquer outra manifestação ateísta já publicada, senão raiva e indignação no estilo bem escrito e humorado.

Para o editor Mark Carpenter, mestre em Letras Modernas pela USP e presidente da Editora Mundo Cristão, “a relevância da obra de Dawkins está diretamente ligada ao pós-11 de setembro. Todas as acusações de violência da religião inconscientemente podem ser associadas aos atentados”. Ao que tudo indica, Carpenter está com a razão. Uma das principais estratégias de marketing de Dawkins é a utilização de banners disponíveis para download em seu website, onde os principais elementos explorados são as torres gêmeas e as palavras “Imagine no religions”, ou seja, “Imagine se não houvesse religiões”.

O evolucionista também utiliza a Bíblia para tentar confundir aqueles que, como ele mesmo diz, “estão em cima do muro”. Questionando origem, base moral e veracidade dos textos, Dawkins inadvertidamente seleciona textos a seu bel-prazer, identifica possíveis evidências de imoralidade, e então pergunta: “Que Deus ético e bondoso é esse que permite esse tipo de criminalidade?”. Para ele, o Antigo Testamento descreve um sistema moral que qualquer pessoa civilizada deveria achar venenosa. “O que dizer de Deuteronômio 13 onde os cristãos da época são instruídos a matar qualquer amigo ou membro da família que seguisse a outros deuses? E sobre Números 31, onde, por ordem de Deus, as mulheres e crianças são mortas pelos soldados? O que seria isso senão um caso de genocídio? E Juízes 19, em que um velho homem atira sua filha a uma multidão de homens loucos para ser estuprada e humilhada numa tentativa de salvar seu hóspede?” Na opinião do cientista, “o Deus do cristianismo só pode ser um dos personagens mais desagradáveis e maldosos de todos os tempos: egoísta e orgulhoso disso, insignificante, vingativo, injusto, rancoroso, racista, um deus que encoraja seus seguidores à prática do genocídio, entre outros crimes bárbaros”.

 


“Vai-se viver como se Deus não existisse. Isso não quer dizer que todo o mundo está se tornando ateu, mas há uma modernização”, explica o PhD em Novo Testamento Russel Shedd

PROTEÇÃO AO POVO DE DEUS

 

Para Acir Raymann, pastor da Comunidade Evangélica Luterana Cristo, de Porto Alegre, professor de Teologia da Universidade Luterana do Brasil, pedagogo, mestre em Antigo Testamento e PhD em Exegética, “o posicionamento de Dawkins quanto à Bíblia não é novidade na história da igreja cristã. Já no século 2 a.D., o herege gnóstico Marcião rejeitava totalmente o Antigo Testamento por encontrar nele um ‘Deus moralmente inferior’.

Quanto à citação de Deuteronômio 13, Raymann diz que “os habitantes de Canaã eram idólatras. Adoravam deuses que supostamente se agradavam de cultos de licenciosidade e prostituição ostensivos e até mesmo sacrifício de crianças (Dt 12.31). Se diante de uma moral humana tais atos são passíveis de condenação, muito mais o são diante de Deus. A aplicação da pena capital, por mais chocante que seja, se destinava a proteger o povo de Deus de ser infectado pelo pecado da incredulidade, cujo salário é a condenação eterna”.

A situação em Números 31 também não é muito diferente. Raymann diz que “Deus foi vingativo contra os midianitas porque estes seduziram o povo à idolatria e à prostituição. O que aconteceu aos midianitas é aqui descrito como uma ordem expressa de Deus. Ainda hoje, Ele permite que catástrofes aniquilem com a vida de massas humanas, independentemente de raça, idade ou sexo. O texto bíblico do Antigo Testamento não esconde o fato que a causa última dos desastres repousa na vontade e providência de Deus”.

Sobre o capítulo 19 de Juízes, Raymann diz que o período em que este estupro ocorre se caracterizava pela ausência de uma liderança política e religiosa em Israel. “Politicamente, o povo ‘fazia o que achava mais reto’ (Jz 17.6), e religiosamente ‘deixaram o Senhor para servir a Baal e a Astarote, prostituindo-se após outros deuses e os adorando’ (Jz 2.13,17). Esse episódio envolvendo um levita é uma fotografia do momento. O libertino assassinato da mulher estuprada até a morte por homossexuais de Gibeá precipitou a guerra civil descrita no capítulo seguinte”. As contravenções que Dawkins tenta encontrar na Bíblia são rasas e demonstram que o autor não tem conhecimentos profundos para tratar do tema. “A Bíblia não fala só de heróis na fé. Ela apresenta também o ser humano na sua mais profunda fragilidade moral e espiritual”. Para Raymann, o relato de Juízes, “longe de ser um exemplo a ser justificado ou seguido, serve de alerta de que, distantes de Deus, estamos expostos a uma vida moral e ética que não entende Deus nem a sua linguagem”.

DESIGNER DO UNIVERSO

As objeções do ateu não param por aí. Dawkins se impõe também com relação à influência da igreja na metodologia e no material didático utilizado nas escolas inglesas e americanas. Para ele, o criacionismo está formando uma geração fundamentalista de cristãos alienados. “Se perguntarmos aos americanos quantos anos tem o universo, 45% deles (cerca de 135 milhões) dirão: menos de 10 mil anos”. Através de sua fundação, Dawkins planeja enviar material didático evolucionista gratuito às escolas americanas e do Reino Unido.

Apesar de o confronto entre ciência e religião parecer crescente, nem toda a produção científica do mundo contemporâneo tem virado as costas para Deus. O escritor Alister McGrath, também professor da Universidade de Oxford, em sua obra O Delírio de Dawkins (com lançamento previsto para 10 de outubro pela Editora Mundo Cristão) mostra que só no ano de 2006, três grandes cientistas publicaram obras relevantes evidenciando a existência de Deus, contrapondo a idéia de Dawkins de que verdadeiros cientistas são ateus. Owen Gingerich, notável astrônomo de Harvard, é o grande exemplo. Com a obra God‘s Universe, o autor declara que o universo foi criado com intenção e propósito, se opondo diretamente à teoria de Dawkins. O cosmologista Paul Davies argumenta sobre a mesma idéia: “Houve um designer do universo”. Outro exemplo é o biólogo americano Francis Collins, diretor do Projeto Genoma Humano, responsável pela descoberta do século: o mapeamento do DNA. Collins lança a obra Language of God, um livro em que ele argumenta que as maravilhas e as ordenanças da natureza apontam para Deus. Nessa mesma obra, o cientista descreve como abandonou o ateísmo para se tornar um cristão.

Apesar de as argumentações de Dawkins parecerem significativas para alguns, suas teorias não correspondem ao esperado por um cientista de renome. São fracas e superficiais. O livro, traduzido pela Companhia das Letras, chega às livrarias brasileiras sob o título Deus, um Delírio nas primeiras semanas deste mês. Como a reportagem de Enfoque fez esta matéria bem antes de muitos terem acesso ao material de Dawkins, tendo lido sua obra em inglês, uma continuação sobre o tema será publicada para que líderes de diversas comunidades religiosas participem com mais opiniões.

(Fonte: Revista Enfoque, Edição 74 - SET / 2007

 

Observações a serem feitas sobre algumas afirmações contidas no artigo:

 

1. "As pessoas têm o que desejam: emprego, família bem cuidada, plano médico etc., quer dizer, supostamente não precisam de nada, nem de Deus”.

Acho que o julgamento acima equivoca-se em um ponto.  As pessoas não se tornam atéias porque têm tudo de que precisam, mas sim, porque, por ter uma condição econômica boa, adquirem mais conhecimento e compreendem melhor o sentido das coisas.

 

2. “Deus foi vingativo contra os midianitas porque estes seduziram o povo à idolatria e à prostituição. O que aconteceu aos midianitas é aqui descrito como uma ordem expressa de Deus. Ainda hoje, Ele permite que catástrofes aniquilem com a vida de massas humanas, independentemente de raça, idade ou sexo. O texto bíblico do Antigo Testamento não esconde o fato que a causa última dos desastres repousa na vontade e providência de Deus”.

Admitir que os desastres são obra de um deus é mostrar um deus extremamente injusto.  Pois, nas regiões de falha geológica, onde os terremotos, tsunamis e vulcões o ocorrem, são atingidos grandes e pequenos, religiosos e ateus, bons e maus, justos e injustos sem exceção.

 

Vingar "a maldade dos pais nos filhos até a terceira e a quarta geração" (Deuteronômio,5: 7-10) não passa de mentalidade de um povo bárbaro, com o mais tacanho conceito de justiça.

 

3. Em relação a Richard Dawkins, dizer: "suas teorias não correspondem ao esperado por um cientista de renome. São fracas e superficiaisé coisa que só pode sair da cabeça de alguém muito religioso.

 

Quando ao avanço do ateísmo, cabe observar que o ateísmo cresce nos lugares onde há mais conhecimento, e a religião cresce nos lugares mais atrasados.  E, como o atraso está em maior parte da população, o saldo geral ainda está sendo em favor da religião.

 

Não vou reproduzir aqui idéias de Richard Dawkins, mas convido o leitor a ver O CONFUSO CARÁTER DIVINO.

 

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