FÁBRICA DE HOMENS-BOMBA

/2010

A nova fábrica de homens-bombas
Paulo Nogueira
Reprodução
Paulo Nogueira, correspondente de ÉPOCA em Londres, mantém o blog Diário do Centro do Mundo em epoca.com.br E-mail: pnogueira@edglobo.com.br

O Iêmen é o país mais pobre do Oriente Médio. Tem 25 milhões de habitantes, metade dos quais é composta de miseráveis e analfabetos. O petróleo, sua principal fonte de renda, está acabando e há escassez até de água hoje. Seus habitantes cultivam o hábito de mastigar o khat, uma planta alucinógena que, como o ópio, amortece a vontade de trabalhar.

 

É um país sem unidade clara, povoado por múltiplas tribos fortemente armadas, e há 30 anos é precariamente governado por uma administração considerada corrupta e repressora pelos especialistas ocidentais. Um quase completo desconhecido fora de sua complicada e conflagrada região, o Iêmen conquistou uma súbita notoriedade neste começo de 2010 e tem sido objeto de extensas análises e reportagens pela mídia de países como Estados Unidos, Inglaterra, França e Alemanha. O estrelato repentino e ambíguo veio com a descoberta de que Umar Farouk Abdul Mutallab, o nigeriano de 23 anos que colocou 80 gramas de explosivos na cueca na tentativa fracassada de explodir um avião no Natal com 300 pessoas a bordo, fora doutrinado e treinado no Iêmen. O Iêmen é hoje uma espécie de fábrica de homens-bombas ou, como colocou uma emissora de TV americana, a “nova casa do terror”. Um papel central vinha sendo abertamente desempenhado por Anwar al-Awlaki, um religioso islâmico de 44 anos nascido, crescido e formado nos Estados Unidos. Palestrante da universidade iemenita em que Abdul Mutallab estudou a língua árabe, em Sana, a capital, Al-Awlaki é autor de livros, panfletos, CDs, DVDs e vídeos que estimulam calorosamente o jihad, a “guerra santa” dos extremistas islâmicos. Sua obra mais conhecida chama-se 44 maneiras de apoiar o jihad e é divulgada em múltiplos meios, incluída a internet. O primeiro tópico conta tudo: todo muçulmano, segundo o autor, deve rezar para que consiga o martírio. Martírio é, no jargão do terror, morrer matando. Os homens-bombas são considerados “mártires”, exemplos a seguir, edificantes e inspiradores. Outro ponto destaca a importância do treinamento com armas. A questão financeira é também sublinhada. O bom muçulmano, diz Al-Awlaki, deve financiar os grupos terroristas e aquilo que for dado retornará “700 vezes maior”.

Al-Awlaki, que vive num lugarejo no Iêmen com a mulher e os filhos, prega a guerra pessoalmente e a distância. Por e-mail, descobriram depois os investigadores do crime, ele foi o mentor do major muçulmano que abriu fogo no Forte Hood, base militar americana no Texas, e matou 13 pessoas desprevenidas no final do ano passado. Rastros de sua catequese foram, igualmente, encontrados em três suicidas que participaram do atentado contra as torres gêmeas em 2001, em que morreram 3 mil pessoas.

Com um currículo de tal envergadura, é surpreendente que os serviços de inteligência dos Estados Unidos não tenham posto antes Al-Awlaki em seu radar para coibir, de alguma forma, sua bem-sucedida pregação destruidora. Ele não se movimentava nas sombras nem escrevia odes à violência sob pseudônimos. Foi preciso que um jovem nigeriano embarcasse com uma cueca mortal num voo rumo aos Estados Unidos para que as luzes fossem projetadas primeiro para o esquecido e desprezado Iêmen e, depois, para o concorrido palestrante Anwar al-Awlaki. A “guerra ao terror” movida por Barack Obama terá de crescer muito em eficiência para que a nova década não repita a passada – e não tenha como som mais marcante o estrépito de bombas seguido da contagem de mortos."  (Época, 08/01/2010)

 

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