A ORIGEM DA GRANDE TRIBULAÇÃO -- 17/05/2006

 

A maioria das igrejas cristãs há séculos aguardam um fato iminente chamado "grande tribulação". Poucas pessoas, talvez, têm conhecimento da origem dessa crença. Essa idéia provém de duas sucessivas profecias, a primeira surgida, ao que parece, no final de um dos períodos mais difíceis da vida dos judeus, sob o ataque do rei sírio Antíoco Epífanes. Como a profecia previa o estabelecimento do reino eterno dos judeus após aquele tempo de tormentos, e isso não ocorreu, ela foi repetida, e posteriormente os cristãos lançaram mão dela relacionando-a à destruição de Jerusalém pelos romanos, e os cristãos do século passado e do atual a utilizam como sendo a previsão de um período difícil que está prestes a acontecer.

Após a morte de Alexandre Magno, o poderoso império grego foi dividido entre seus quatro generais: Cassandro, Lisímacus, Ptolomeu e Seleucus. Conforme registrado no primeiro livro dos Macabeus, o rei sírio Antíoco IV, o oitavo da dinastia selêucida (de Seleucus) tentou acabar com a religião judaica matando Onias, o ungido sumo sacerdote judeu, destruindo o templo de Jerusalém e oferecendo sacrifícios aos seus deuses sobre o altar de Yavé e proibindo os hebreus de praticar a sua religião.

Um judeu chamado Judas, diante da desolação em que se achava a cidade santa, preparou seu exército contra o opressor e conseguiu vencer a guerra, restaurando o santuário.

Naqueles dias é que devem ter aparecido as predições constantes dos capítulos 8 a 12 de Daniel, que são tidas como escritas cerca de quatro séculos antes pelo profeta, que vivia na corte de Nabucodonozor.

Esses cinco capítulos de Daniel falam com muitos detalhes da ação de Antíoco e da restauração do santuário. Porém prevê o estabelecimento daquele esperado reino eterno dos judeus após esses fatos. Tudo indicava que os hebreus dessa vez reinariam, mas o resto da profecia falhou. Como os judeus não fundaram o referido reino, mas tudo até a restauração do santuário estava escrito detalhadamente na profecia, é de se suspeitar que ela tenha sido elaborada exatamente nos dias da vitória de Judas. O texto em Daniel 8 não deixa nenhuma dúvida: "...o bode peludo é o rei da Grécia; e o grande chifre que tinha entre os olhos é o primeiro rei. O ter sido quebrado, levantando-se quatro em lugar dele, significa que quatro reinos se levantarão da mesma nação, porém não com a força dele" (Daniel, 8: 21, 22). Assim, "um rei, feroz de semblante e que entende enigmas" (versículo 23) não poderia ser outro que não Antíoco IV. Se o rei deveria destruir o poder do povo santo e profanar o santuário, só Antíoco fez isso com precisão. Vencida a guerra por Judas Macabeu, o santuário foi restaurado. Para cumprir tudo, só faltava o estabelecimento do reino judeu sobre todos os povos, o que não ocorreu.

Passados aqueles dias, não demorou muito caírem os hebreus sob o férreo Império Romano. Aí entra a profecia do capítulo 7. O capítulo 7 de Daniel fala de um período de destruição do poder do povo santo muito semelhante ao que consta do capítulo 8; todavia, o agente autor do assolamento já seria alguém procedente de um império poderoso simbolizado por um animal terrível, de dez chifres, com dentes de ferro, que todos dizem ser o Império Romano. No final desse tempo de sofrimento, à semelhança da predição do capítulo 8, deveria vir o reino eterno do povo de Yavé.

Coincidentemente, no ano 70 da era atual, o exército romano destruiu a cidade santa e novamente começou um período muito apropriadamente chamado de "grande tribulação". Os judeus foram dispersos pelo império, perdendo sua pátria. Alguns anos depois das destruição da cidade santa, foram escritos os vários evangelhos cristãos, dos quais no século IV a igreja cristã romana escolheu quatro para fazer parte da bíblia cristã.

Nos evangelhos de Mateus e de Lucas, consta Jesus, o messias dos cristãos, ter avisado aos seus seguidores sobre a destruição da cidade, dizendo ser "o abominável da desolação de que falou o profeta Daniel" (Mateus, 24: 15).

Pela terceira vez, estava a promessa do reino: "Logo depois da tribulação daqueles dias, escurecerá o sol, e a lua não dará a sua luz; as estrelas cairão do céu e os poderes dos céus serão abalados. Então aparecerá no céu o sinal do Filho do homem, e todas as tribos da terra se lamentarão, e verão vir o Filho do homem sobre as nuvens do céu, com poder e grande glória. E ele enviará os seus anjos com grande clangor de trombeta, os quais lhe ajuntarão os escolhidos desde os quatro ventos, de uma à outra extremidade dos céus" (Mateus, 24: 29-31).

A profecia de Daniel fala que a duração do período de tribulação é de "um tempo, dois tempos e metade de um tempo", isto é, três anos e meio. Como os romanos expulsaram os hebreus de sua terra, e isso não durou três anos e meio, mas se estendeu pelos séculos seguintes, para não admitir que a profecia falhara, deveria haver uma interpretação convincente. Daí é que deve ter surgido a crença de que a cada dia corresponderia um ano.

Se a cada dia da grande tribulação deveria corresponder um ano, não seria difícil saber quando deveriam ocorrer os incríveis fenômenos cósmicos: escurecimento do sol e da lua e a queda das estrelas (naquele tempo acreditava-se que as estrelas fossem pequeninas bolinhas luminosas como parecem aos nossos olhos). Mil duzentos e sessenta anos contados do ano 70 vão até o ano 1330. Assim sendo, o período de desolação deveria se acabar naquele ano (1330) e logo depois deveriam dar-se o escurecimento do Sol e a queda das estrelas, e Jesus deveria aparecer nas nuvens do céu para recolher seus escolhidos e estabelecer o reino eterno.

Todos sabemos que nada do que foi predito no evangelho de Mateus para além da dispersão dos judeus se cumpriu. Mas os religiosos jamais aceitariam a simplicidade dos fatos. A semelhança dos judeus, os cristãos continuaram esperando um dia a volta e o reino de Jesus.

No século dezenove, os mestres da Igreja Adventista do Sétimo Dia interpretaram que a grande tribulação fora o período de domínio papal, iniciado no ano 538 e terminado no ano 1798, quando o papa foi aprisionado por Napoleão Bonaparte. E, como as profecias do Apocalipse de João são diferentes do que diz o chamado sermão profético de Jesus em Mateus, eles conseguiram manter o convencimento da fé nas previsões. Em apocalipse, aquela tribulação de mil duzentos e sessenta dias não seria o final dos domínios mundanos como está em Mateus 24. Lá está escrito sobre o período de tribulação causado por uma fera de sete cabeças e dez chifres (o Império Romano), mas é prevista uma segunda besta, com todo o poder da primeira. E, não obstante as palavras atribuídas a Jesus em Mateus afirmem que aquele tempo de tribulação era "como igual nunca houve, nem haverá jamais" (Mateus, 24: 21), o Apocalipse prevê outro, e os adventistas o esperam. Os cristãos evangélicos também desde o século passado até já marcaram datas muito próximas para ocorrer a grande tribulação, que eles acreditam deverá durar três anos e meio. Assim, apesar de termos provas bem claras de que as previsões bíblicas não se cumpriram, permanece na cabeça dos cristãos a crença de que haverá ainda uma grande tribulação e Jesus virá estabelecer um reino divino e eterno, onde não haverá mais sofrimento.

Hoje, milhões de pessoas vivem aguardando grande tribulação, ignorando que essa idéia deriva de interpretações erradas de textos escritos antes da era cristã com referência a um período de grande sofrimento dos judeus, que, deveria, segundo os videntes da época, ser os últimos dias de sofrimento dos judeus.  Nada tinha a ver com os nossos dias.

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