O PODER DE DEUS OU O PODER DOS DEUSES
(Anticristo)

 

Desde tempos pré-históricos, os deuses fazem a guerra. E cada crente espera um dia derrotar os que crêem de forma diferente com a ajuda de seu deus. O mais grave é que, quando tem poder, ninguém espera a ação de seu deus, mas tenta fazer a vingança por ele. Ao mesmo tempo que proclama seu deus como todo-poderoso, o religioso, em seu inconsciente, entende que seu deus nada faz e age em nome dele. E, assim, rios de sangue correm em nome de seres imaginários tidos como bons, justos e perfeitos.

"Quebraremos a cruz e derramaremos o vinho ... Deus ajudará os muçulmanos a conquistar Roma ... nos fará capazes de cortar o pescoço ... dos infiéis e dos déspotas", diz um texto publicado na Internet pelo Conselho Consultor Mujahedin, grupo que serve de guarda-chuva para a Al Qaeda no Iraque. O grupo adverte: "Aos devotos da cruz, (o papa) e o Ocidente, dizemos que os derrotaremos da mesma forma que estão vendo todos os dias no Iraque, Afeganistão e Chechênia". (El País).

As palavras expressas acima são de agentes muçulmanos em recente resposta à insinuação de que são dados à violência. Isso, porque não reconhecem que são violentos. Imagine se reconhecessem!

Esse desejo muçulmano e esperança contra o mundo cristão era também o desejo dos judeus contra o resto do mundo há mais de dois mil e quinhentos anos, quando ameaçados pelos assírios. Assim ficou registrado como palavra divina por um dos seus profetas:

"E o resto de Jacó estará no meio de muitos povos, como orvalho da parte do Senhor, como chuvisco sobre a erva, que não espera pelo homem, nem aguarda filhos de homens. Também o resto de Jacó estará entre as nações, no meio de muitos povos, como um leão entre os animais do bosque, como um leão novo entre os rebanhos de ovelhas, o qual, quando passar, as pisará e despedaçará, sem que haja quem as livre. A tua mão será exaltada sobre os teus adversários e serão exterminados todos os seus inimigos. Naquele dia, diz o Senhor, exterminarei do meio de ti os teus cavalos, e destruirei os teus carros; destruirei as cidade da tua terra, e derribarei todas as tuas fortalezas. Tirarei as feitiçarias da tua mão, e não terás adivinhadores; arrancarei do meio de ti as tuas imagens esculpidas e as tuas colunas; e não adorarás mais a obra das tuas mãos. Do meio de ti arrancarei os teus aserins, e destruirei as tuas cidades. E com ira e com furor exercerei vingança sobre as nações que não obedeceram.” (Miquéias, 5: 2-15).

Os cristãos primitivos esperavam o mesmo contra o resto do mundo que não abraçasse suas crenças. Havia uma diferença. Eles não pensavam em usar a espada, mas acreditavam que seu deus iria usar outros agentes e enviar pragas do céu e destruir o poder romano. Mas isso foi só o pensamento dos que eram massacrados nos primórdios do Cristianismo. Assim que assumiram o poder, cuidaram de fazer a obra divina de destruição dos desobedientes.

O que invariavelmente ocorre sempre é que o grupo religioso mais forte, em nome da vontade do seu deus, perpetra, contra os religiosos mais fracos e não religiosos, crueldades jamais vistas em quaisquer outras espécies dos seres vivos, e esses atos hediondos ainda são vistos como obras santas.

Enquanto de um lado uns se vangloriam de executar a vontade divina, do outro os pobres desvalidos muitas vezes são capazes de suportar até com prazer os comportamentos irracionais de seus algozes, vendo-se como mártires da verdadeira causa divina.

Engana-se quem acredita nos pacíficos argumentos de um chefe religioso que convida os outros à paz e diz que esse ódio religioso é "incompatível com a natureza de Deus". Se sua instituição religiosa recuperasse o poder que teve na Idade Média, o discurso seria outro.

Quando os romanos lançavam às feras judeus e cristãos e se divertiam ao vê-los despedaçados - se isso não for mais uma invenção cristã -, certamente deveriam rir de lendas como "Daniel na cova dos leões", "Ananias, Misael e Azarias ilesos entre chamas" e outras mais, ao passo que os perdedores sonhavam com o reino do céu. Depois, quando os próprios cristãos, agora com o poder, eram capazes de atear fogo em pessoas que não prestassem obediência ao que eles chamavam de vontade de Deus, as suas vítimas deviam ter boas razões para o deus justo e bom não as livrar do terrível tormento, que só deveria ser inferior àquele que acreditavam estar reservado aos seus adversário no inferno.

Hoje, quando muçulmanos assassinam cristãos, cristãos matam muçulmanos, cristãos destroem cristãos, muçulmanos exterminam muçulmanos, e alguns explodem a si próprios para atingir os inimigos, tudo isso é satisfação da vontade divina. E ninguém é capaz de raciocinar e perceber que nenhum deus tem a capacidade de impedir seus inimigos se eles próprios não agirem; não vêem que nada vai além das vontades divergentes dos próprios homens.

Quando, em razão do rompimento de uma placa tectônica, uma onda gigante atinge a todos os que por acaso estão em um litoral, sem distinção entre bons e maus, aí surgem os mestres da ignorância para aplaudirem a justiça de seus deuses, como se todos os infelizes pegos de surpresa, inclusive inocentes crianças, fossem os pecadores dignos dos castigos divinos.

E, como não podia faltar uma boa estratégia de defesa da irracionalidade, alguns ainda explicam que os bons e os inocentes que sofreram aquela terrível ação divina estão pagando os pecados cometidos em outras vidas passadas. Se questionamos que justiça haveriam em uma pessoa pagar por um erro que não tem consciência de haver cometido, ouvimos as tradicionais respostas: "Somos incapazes de entender a sabedoria divina"; "Deus escreve certo por linhas tortas"; etc.; etc.; etc.; e a cultura primitiva continua prevalecendo sobre o pensamento racional.

Nesse embate da estupidez humana, cada grupo comete seus crimes enquanto espera a breve recompensa de seu deus, e a inteligência, em vez de usada para o bem, é dedicada ao mal, tudo em nome de seres imaginário formados nas cabeças primevas, que adquiriram o poder sobrenatural de promover a destruição. Enquanto existir o pensamento religioso, será esse o cenário caótico que dominará a espécie que, embora a mais inteligente do planeta, não entende que é tão animal quanto as cobras e os escorpiões, mas muito mais cruel do que os répteis e os pavorosos artrópodes. 
(Anticristo 2000, 22/09/2006)

 

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