O PROCESSO DE LIBERTAÇÃO

 

O processo de libertação da fé quase sempre é bem lento.  Você começa a perceber que o que você acredita não tem base, mas fica em dúvida, pensando que pode estar enganado. Primeiramente, você se torna um agnóstico, sem certeza da existência ou inexistência do objeto de sua fé. Só depois de analisar muito, você é capaz de chegar a uma conclusão. Comigo foi assim.

 

Não tenho lembrança de quando aprendi a falar, o que se diz ser normal.  Mas a coisa mais antiga que lembro que me foi ensinado é:  "Creio em Deus pai todo-poderoso, criador do céu e da Terra; creio em Jesus Cristo, seu único filho, o qual foi crucificado, foi morto e sepultado, desceu aos infernos e, ao terceiro dia, ressurgiu dos mortos, subiu ao céu e está assentado à direita de Deus pai, de onde há de vir julgar os vivos e os mortos; creio no Espírito Santo, na santa Igreja Católica, na comunhão dos santos, na remissão dos pecados, na ressurreição da carne, na vida eterna, amém."

 

Lembro de ter perguntado a minha mãe sobre o significado de várias dessas palavras, pois, dada a minha idade, muitas delas me eram desconhecidas.  A frase "desceu aos infernos", pouco tempo depois, foi substituída por "desceu à mansão dos mortos", o que entendi ser a sepultura, o que várias correntes cristãs afirmam não ser.

 

Com esse primeiro discurso chamado "credo" na cabeça, a notícia de que uma pessoa não acreditasse em deus só poderia parecer algo absurdo. 

 

Certo dia, minha irmã mais velha resolveu ler o apocalipse para a família.  Como diziam que na Bíblia estava escrito que o mundo não chegaria ao ano 2000, fiquei pensando: "antes de completar quarenta e dois anos, vou ter que enfrentar aqueles gafanhotos que picam como escorpiões!" Nunca fui picado por um escorpião, mas era informado de ser extremamente dolorido.  Como eu morava na roça, onde colhia quase tudo que comia, ser proibido de comprar e vender por não aceitar o selo da besta não seria tão difícil.   Chuva de granizo eu via muito, mas com pedras enormes, pesando um talento, peso que não tinha ideia do que fosse, eu sabia ser um  temporal inédito, mas pensava que poderia me proteger dela.  O que me deixava preocupado era a possibilidade de morrer por não adorar a fera.

 

Depois de quase adulto, fiquei sabendo que a besta era o papa, que mandava praticar as piores atrocidades contra quem discordasse da igreja, mas isso já estava no passado.  Todavia, tinha aquela segunda besta, que seria a Igreja Católica unida com as igrejas protestantes, e isso estava muito próximo.  Eu já havia descoberto que não existia na Bíblia essa menção de que o mundo não passaria do ano 2000, todavia os eventos, segundo os mestres adventistas, indicavam que tudo poderia chegar ao fim mesmo antes desse ano.

 

Como era um cristão sincero, que queria conhecer bem toda a verdade, estudava atentamente, e comecei a levar alguns sustos.  Ao ler I Timóteo, 4, fiquei em dúvida se não estava seguindo homens que "tem a consciência cauterizada", já que a minha igreja exigia "abstinência de alimentos" diversos, entre eles carne.  Comparando Mateus 24, com Lucas 21, senti que a tal "grande tribulação" de domínio da "besta" do apocalipse teria começado com o cerco e destruição de Jerusalém, e a mulher assentada sobre a besta não era a "Igreja Católica", mas a cidade de Roma, que estava sobre "sete montes".  Assim sendo, os "mil duzentos e sessenta dias", que diziam ser mil duzentos e sessenta anos não teriam começado no ano 538, mas no ano 70.  Tentando descobrir qual a religião das milhares de cristãs estaria com a verdade, descobri que a Bíblia é que é cheia de graves contradições.  Os questionamentos foram minando a minha fé e, por mais que eu tentasse, não mais conseguia acreditar que esse livro contivesse alguma verdade. 

 

O aprofundamento do estudo me tornou agnóstico o que é o meio do caminho para o ateísmo. Antes disso, eu já ficava sem compreender como um deus perfeito, justo e bom poderia punir os filhos pelos erros dos pais. Após analisar bem as clara afirmações de que a Terra é plana e flutua sobre as águas do mar, sendo o centro do universo, e que o Sol caminha de uma a outra extremidade dos céus, só pude chegar à conclusão de que a onisciência do deus dos judeus e cristãos não ia além das informações equivocadas que os homens tinha dois mil anos atrás.  Depois de verificar que esse deus teria prometido que o trono da descendência de Davi nunca teria fim e eles iria dominar sobre todas as nações, mas esse trono acabou pouco tempo depois, e mais adiante esses foram expulsos da terra que lhes teria sido dada por Yavé, tive mais certeza de que tudo aquilo eram fantasias de sonhadores.  E, ao analisar certos eventos relativos a Jesus, como exemplo uma escuridão de três horas sobre sobre toda a Terra, que não foi vista por ninguém que registrava eclipse, concluí que esse salvador morto e ressuscitado é também um invento. Mas esse processo de completa libertação da fé levou anos. 

 

Depois de chegar a essa conclusão, passei muitos anos mantendo-a comigo, imaginando não ser bom destruir a fé das pessoas, uma vez que muitas delas poderiam se desesperar ao descobrir que era um engano aquela suposta proteção divina e a esperança de uma vida eterna.  Todavia, depois de mais uns anos, cheguei à constatação de que a fé não é puramente ajuda psicológica, mas causa muito mal aos que não se submetem a esse pensamento, podendo levar a tortura e morte.  Aí, decidi que deveria expor minhas descobertas e contribuir para que o mundo não volte a ser submetido por um domínio religioso e os que não creem venham perder a liberdade e ser obrigados a fazer o que uma religião manda.

 

Assim, foi o processo de libertação da fé e a decisão de divulgar o conhecimento, em benefício de toda a humanidade.  Sendo o deus dominante apenas o produto da mentalidade primitiva que recorre até à guerra para perpetuar o engano, não podemos ficar calados deixando a humanidade à mercê de um pensamento retrógrado que retarda o desenvolvimento científico e luta contra  os direitos humanos.

 

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