OS ÚLTIMOS DIAS – O TEMPO DO FIM -- 17/06/2006 -

 

"O fim está próximo destes tempos muitos distantes" (Anticristo). Uma das coisas de que mais se fala nos nossos dias é "o fim do mundo", "o tempo do fim", "os últimos dias" e outras expressões congêneres. Mas isso não é singularidade dos nossos tempos. Há mais de dois mil anos a expressões "últimos dias" e "tempo do fim" já eram utilizadas para se referir a tempo muito próximo; e até a "ultima hora" já dura próximo de dois milênios. E esse fim parece não ter mais fim.   O que muitos não sabem é que "últimos dias" e "tempo do fim" para os judeus não eram o fim do mundo; passou a ser o fim do mundo com os cristãos.

"Acontecerá nos últimos dias que se firmará o monte da casa do Senhor, será estabelecido como o mais alto dos montes e se elevará por cima dos outeiros; e concorrerão a ele todas as nações" (Isaías, 2: 2). Essa é a segunda vez que encontramos na Bíblia uma promessa de livramento de Judá de seus opressores e estabelecimento de um reino judeu de domínio mundial. Mas é a primeira que fala de últimos dias. A expressão últimos dias aí não seria "o fim do mundo" como dizem hoje, mas o fim da opressão ao povo escolhido de Yavé. Esse texto pode ter sido escrito quando a Assíria exilou Israel e impôs a Judá o pagamento de tributos, ou nos dias em que os povos de Israel e Judá viviam sob o cativeiro de Babilônia. No final do livro de Isaías, fica bem claro que toda a opressão teria fim com a queda de Babilônia.

Um profeta dos dias do domínio assírio prometeu a vitória de Judá sobre a Assíria e o estabelecimento do tão falado reino eterno:


“Mas tu, Belém Efrata, posto que pequena para estar entre os milhares de Judá, de ti é que me sairá aquele que há de reinar em Israel, e cujas saídas são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade. Portanto os entregará até o tempo em que a que está de parto tiver dado à luz; então o resto de seus irmãos voltará aos filhos de Israel. E ele permanecerá, e apascentará o povo na força do Senhor, na excelência do nome do Senhor seu Deus; e eles permanecerão, porque agora ele será grande até os fins da terra. E este será a nossa paz. Quando a Assíria entrar em nossa terra, e quando pisar em nossos palácios, então suscitaremos contra ela sete pastores e oito príncipes dentre os homens. Esses consumirão a terra da Assíria à espada, e a terra de Ninrode nas suas entradas. Assim ele nos livrará da Assíria, quando entrar em nossa terra, e quando calcar os nossos termos. E o resto de Jacó estará no meio de muitos povos, como orvalho da parte do Senhor, como chuvisco sobre a erva, que não espera pelo homem, nem aguarda filhos de homens. Também o resto de Jacó estará entre as nações, no meio de muitos povos, como um leão entre os animais do bosque, como um leão novo entre os rebanhos de ovelhas, o qual, quando passar, as pisará e despedaçará, sem que haja quem as livre. A tua mão será exaltada sobre os teus adversários e serão exterminados todos os seus inimigos. Naquele dia, diz o Senhor, exterminarei do meio de ti os teus cavalos, e destruirei os teus carros; destruirei as cidades da tua terra, e derribarei todas as tuas fortalezas. Tirarei as feitiçarias da tua mão, e não terás adivinhadores; arrancarei do meio de ti as tuas imagens esculpidas e as tuas colunas; e não adorarás mais a obra das tuas mãos. Do meio de ti arrancarei os teus aserins, e destruirei as tuas cidades. E com ira e com furor exercerei vingança sobre as nações que não obedeceram.” (Miquéias, 5: 2-15).   Parece que foi nessa época que os judeus começaram a dar exclusividade a Yavé, considerando falsos todos os outros deuses.

Como nenhum judeu conseguiu cumprir a predição, e Judá, tal qual Israel, caiu sob o jugo babilônico, o fim da opressão passou a ser esperado para os dias da queda de Babilônia.

 

Assim, expressou o profeta:

Pois eis que eu crio novos céus e nova terra; e não haverá lembrança das coisas passadas, nem mais se recordarão: Mas alegrai-vos e regozijai-vos perpetuamente no que eu crio; porque crio para Jerusalém motivo de exultação e para o seu povo motivo de gozo. E exultarei em Jerusalém, e folgarei no meu povo; e nunca mais se ouvirá nela voz de choro nem voz de clamor. Não haverá mais nela criança de poucos dias, nem velho que não tenha cumprido os seus dias; porque o menino morrerá de cem anos; mas o pecador de cem anos será amaldiçoado. E eles edificarão casas, e as habitarão; e plantarão vinhas, e comerão o fruto delas. Não edificarão para que outros habitem; não plantarão para que outros comam; porque os dias do meu povo serão como os dias da árvore, e os meus escolhidos gozarão por longo tempo das obras das suas mãos: Não trabalharão debalde, nem terão filhos para calamidade; porque serão a descendência dos benditos do Senhor, e os seus descendentes estarão com eles” (Isaías, 65: 17-23).

Todavia, a queda de babilônia não foi acompanhada do estabelecimento do reino hebreu. Eles continuaram sob domínio dos próximos donos do mundo de então. Vieram os medos e persas e depois os gregos; e Israel e Judá continuaram sob os domínios gentios.

Nos dias em que o império grego foi dividido, também a sorte dos hebreus não melhorou; o pior estava por vir. Antíoco IV, rei da Síria, um dos herdeiro de parte do império de Alexandre o Grande, desencadeou sobre os hebreus o que foi chamado de "tempo de angústia tal qual nunca houve" (Daniel, 12: 1). Conforme relatado nos livros dos Macabeus, Antíoco proibiu as práticas da religião hebraica, deitou abaixo o santuário de Yavé e sacrificou carne de porco sobre o altar sagrado dos judeus. Antíoco prevaleceu com o que a Bíblia chama de "abominação assoladora" até que Judas Macabeu venceu a guerra e restabeleceu o santuário.

Ao que parece, o capítulo 8 do livro de Daniel foi escrito nos dias em que Judas saiu vitorioso sobre o inimigo e restaurou sua prática religiosa. Uma longa exposição de atos e fatos relativos a Antíoco começou com essas palavras: "Eis que te farei saber o que há de acontecer no último tempo da ira; pois isso pertence ao determinado tempo do fim". (Daniel, 8: 19). Os capítulos 9, 10, 11 e 12 dão uma interpretação detalhada, com a predição do fim das agruras dos hebreus após terminado aquele "tempo de angústia". Deveria ocorrer até a ressurreição dos mortos, esperança que os hebreus adquiriram nos períodos de domínios babilônicos e persas. Antes, a ressurreição dos mortos não existia nas promessas de Yavé.  (Ver A RESSURREIÇÃO DOS MORTOS).

Acredito que o capítulo 8 de Daniel foi escrito nos dias de Judas Macabeu, porque a profecia tem completa coincidência com os fatos desde o estabelecimento do domínio de Alexandre até os dias de Judas, mas perde o rumo da história depois daqueles dias.

Uma vez que o reino eterno dos hebreus não foi estabelecido logo em seguida à vitória de Judas, e pouco tempo depois vieram os romanos e subjugaram todos os reinos do Oriente Médio e da Europa, surgiu uma outra profecia, que foi reunida ao livro compondo o capítulo 7 de Daniel. Nessa, há um tempo de tribulação semelhante ao descrito no capítulo 8, mas tem pequenas diferenças, que muitos atribuem ao império romano. No capítulo 8, o agente assolador era um rei procedente da divisão do Império Grego. Já no capítulo 7, o império grego era representado por um leopardo de quatro cabeças (símbolo da divisão do império), tendo sido precedido pelo Medo-Persa (urso), esse antecedido pelo Babilônico (leão), mas após a divisão, representada pelas quatro cabeças, viria um outro reino, muito mais poderoso, representado por um animal incomum de dez chifres. Desse império é que surgiria o assolador. Assim, muitos dizem que a referência não seria a Antíoco, embora ainda exista interpretação capaz de encaixar nele todos os pormenores. 

Dessa previsão, podemos deduzir o seguinte: o capítulo 7 pode ter sido escrito já nos dias do domínio romano. Pois a profecia do capítulo 8 não previa nenhum poder gentio a oprimir os hebreus após Antíoco IV. Assim, o capítulo sete dava uma nova esperança aos hebreus, isto é, o Império Romano cairia, e aquele esperado reino hebreu seria estabelecido. Aí as expressões "últimos dias", "últimos tempos", "tempo do fim" e "fim dos tempos" já seriam aplicáveis ao que deveria vir após o Império Romano. Não é por outra razão que alguns judeus tentaram libertar seu povo do Império Romano, donde surgiu o Cristianismo.

O primeiro escritor cristão, apóstolo Paulo, acreditava que Jesus, que cria ter ressuscitado no terceiro dia de sua execução, retornaria para estabelecer o seu reino eterno. E isso seria em seus próprios dias:


"Dizemo-vos, pois, isto pela palavra do Senhor: que nós, os que ficarmos vivos para a vinda do Senhor, de modo algum precederemos os que já dormem" (I Tessalonicenses, 4: 15). Mas, posteriormente, desistiu dessa idéia, e passou a acreditar que iria morrer e ser um dos ressuscitado no dia da volta de Jesus. Disse em carta a um de seus discípulos: "Quanto a mim, já estou sendo derramado como libação, e o tempo da minha partida está próximo. Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a sua vinda" (II Timóteo, 4: 6-8).

O apóstolo Pedro, em uma de suas cartas, expressou uma idéia um pouco diferente sobre os chamados "últimos dias". Para ele, na volta de Jesus, céus e terra seriam destruído pelo fogo, e seriam criados "novos céus e nova terra":


"Virá, pois, como ladrão o dia do Senhor, no qual os céus passarão com grande estrondo, e os elementos, ardendo, se dissolverão, e a terra, e as obras que nela há, serão descobertas. Ora, uma vez que todas estas coisas hão de ser assim dissolvidas, que pessoas não deveis ser em santidade e piedade, aguardando, e desejando ardentemente a vinda do dia de Deus, em que os céus, em fogo se dissolverão, e os elementos, ardendo, se fundirão? Nós, porém, segundo a sua promessa, aguardamos novos céus e uma nova terra, nos quais habita a justiça" (II Pedro, 3: 10-13).

O apóstolo João também imaginava estar nesses "últimos dias". Chegou até a usar a expressão "última hora": “Filhinhos, esta é a última hora; e, conforme ouvistes que vem o anticristo, já muitos anticristos se têm levantado; por onde conhecemos que é a última hora” (I João, 2: 18).

Outros escritores cristãos, os autores dos evangelhos de Mateus e Lucas, deram mais uma interpretação às profecias de Daniel.

O Evangelho de Mateus apresentam um discurso profético atribuído a Jesus em que teria falado da destruição de Jerusalém e dispersão dos judeus como sendo "a abominação de desolação, predita pelo profeta Daniel":

Quando, pois, virdes estar no lugar santo a abominação de desolação, predita pelo profeta Daniel (quem lê, entenda)” (V. 15).

Para não restar dúvida de que esse texto se refere ao cerco e destruição da cidade santa, Jerusalém, basta ler o relato de Lucas: "Quando, pois virdes Jerusalém sitiada de exércitos, sabei que está próxima a sua devastação" (Lucas, 21: 20). É bom lembrar que esses evangelhos foram escritos após a destruição da cidade, isto é, a predição foi relatada após o fato.
...
porque haverá então uma tribulação tão grande, como nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem jamais haverá” (v. 21).

Isso é a repetição do texto de Daniel: “e haverá um tempo de tribulação, qual nunca houve, desde que existiu nação até aquele tempo” (Daniel, 12: 1). Note-se que essa tribulação não poderia repetir-se, como está escrito: “um tempo”, não dois, “qual nunca houve... nem haverá jamais”. Não obstante, muitos estão ainda aguardando grande tribulação.

E o discurso profético é concluído assim:


Logo depois da tribulação daqueles dias, escurecerá o sol, e a lua não dará a sua luz; as estrelas cairão do céu e os poderes dos céus serão abalados. Então aparecerá no céu o sinal do Filho do homem, e todas as tribos da terra se lamentarão, e verão vir o Filho do homem sobre as nuvens do céu, com poder e grande glória. E ele enviará os seus anjos com grande clangor de trombeta, os quais lhe ajuntarão os escolhidos desde os quatro ventos, de uma à outra extremidade dos céus. Aprendei, pois, da figueira a sua parábola: Quando já o seu ramo se torna tenro e brota folhas, sabeis que está próximo o verão. Igualmente, quando virdes todas essas coisas, sabei que ele está próximo, mesmo às portas” (Mateus, 24: 29-33).

Nessa previsão dos "últimos dias", dias estes que significaria o fim dos poderes gentios, com o início do reino eterno, agora não dos hebreus, mas de Jesus e os cristãos, temos uma cronologia aproximada de quando se deveria dar o chamado fim dos tempos.

Em Daniel está escrito que a grande tribulação duraria "um tempo, dois tempos e metade de um tempo" (Daniel, 7: 25; 12: 7). Essas palavras se traduzem por três anos e meio. Em Apocalipse, aparece a expressão "quarenta e dois meses" (Apocalipse, 13: 5).

Como a cidade foi destruída no ano 70 e a tribulação se estendia pelas décadas seguintes, já não se poderia admitir que a profecia estivesse falando de três anos e meio, e isso forçou a criação de uma nova interpretação: cada dia corresponderia a um ano. Assim o fim dos poderes gentios já não estava tão próximo, deveria ocorrer em pouco mais de um milênio. Era tempo mais que suficiente para uma grande expansão do cristianismo. Mas esse tempo também teria fim, tornando necessário reinterpretar as profecias continuamente.


Passaram os mil duzentos e sessenta anos, e, dessa vez, era o Cristianismo que estava no poder, massacrando a todos que discordassem das doutrinas da igreja cristã romana, a nova dona do mundo. O sol não escureceu, nem tampouco a Lua, nem caíram as estrelas, e Jesus não apareceu nas nuvens dos céus. Mas as palavras atribuídas a Jesus, assim como as de Daniel, não perderam a credibilidade. Novas interpretações foram surgindo e continuam aparecendo até hoje, e sempre estamos nos últimos dias, no fim dos tempos, no tempo do fim, e isso parece que nunca chega ao fim.

 

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