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VIDA BOA É A DOS OUTROS
(30 DE JULHO)

 

Tendemos a enxergar as flores dos outros e os nossos espinhos.

Um homem trabalhava de sol a sol, plantando batatas. Em dado momento, cansado, suarento, limpou o suor da fronte com a manga da camisa e começou a lamentar consigo mesmo:


- Que vida dura essa! Batalhando aqui o dia todo, suportando o sol e a chuva, as variações do clima, para auferir parcas rendas. E quando o produto tão trabalhosamente obtido chega à banca dos feiristas, as donas de casa compradoras escolhem exigentemente cada fruto, desprezando os menos atraentes, sem fazer idéia do trabalho que dá...

 

Nisso, distendeu a vista pelo asfalto distante e viu um ônibus deslizando suavemente. Comentou com seus botões:

- Vida boa é a de motorista de ônibus; trabalha sentado, à sombra, viajando, vendo paisagens!...

Nesse exato instante, o motorista do ônibus conjecturava, tristemente:

 

- Que vida sacrificada! Há quantos anos vivo de lá pra cá, de cá pra lá, sem parada, suportando a frivolidade de turistas e a chatice de passageiros problemáticos! Passo a vida praticamente fora de casa, sem poder acompanhar o crescimento dos filhos e desfrutar o conforto doméstico. Além de tudo, correndo risco de vida e de ser despedido quando ocorra qualquer acidente que estrague o carro...

 

Olhou distraidamente pela janela do ônibus e viu um automóvel de passeio que o ultrapassava com facilidade.

- Vida boa é como a desse empresário que vai ali naquele 'Del Rey' - balbuciou.  - Despreocupado, dono de seu tempo, com dinheiro suficiente para ter o que deseja e ir onde quer!

Naquele momento, o homem de negócios ia em seu automóvel matutando, amargamente:


- Que vida estafante! Trabalho 14 horas por dia, corro sem parar administrando interesses da empresa, da família, dos empregados e ainda sou tido como ambicioso, insensível! Ninguém reconhece meus esforços, os filhos julgam que o dinheiro cai do céu para usarem e abusarem, a esposa não compreende as longas ausências do lar, as filiais exigindo viagens repetidas, as flutuações de mercado, as pressões do fisco, os juros altos dos financiamentos...

 

Olhou ao alto, através do pára-brisa, e viu um avião a jato singrando os céus, deixando um rastilho de fumaça e ponderou:

- Vida boa é como a do piloto desse avião que ali vai; voando lá no silêncio das alturas, distante das agruras terrenas, desfrutando o status de uma profissão respeitável, sem ter que se preocupar com os problemas da empresa a que serve, atendido gentilmente em cada aeroporto...

 

Exatamente nessa hora, o piloto do jato, em sua cabina, divagava cismarento:


- Não agüento mais esta vida!  Voando sempre de um lado para outro, em meio a esta parafernália de instrumentos, sujeito a horários e normas rígidas, tendo que confiar em mecânicos nem sempre atentos, sem liberdade para dispor do tempo desejável em cada cidade!

 

Dirigiu o olhar para baixo, meditativo, e viu um homenzinho lá embaixo arroteando um terreno para plantar batatas e afirmou convicto:

- Vida boa é a daquele lavrador lá embaixo, exercendo o mister mais original e legítimo do homem: lavrar a terra e colher dela o alimento de que se nutre, sem complicar a vida! No chão firme, seguindo o ritmo da natureza, sem se preocupar com estes mapas complicados de vôo e manômetros complexos...

É... vida boa... uma questão de perspectiva.   Mas cada pessoa vê as flores das paisagens alheias enquanto enxerga mais os espinhos da própria.
 

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