DONA MARIA, CRIADA PARA ATACAR LULA COM DESINFORMAÇÃO

Um avatar criado por inteligência artificial para simular uma mulher negra, de meia-idade e origem popular tornou-se o centro da primeira grande batalha jurídica sobre o uso de tecnologias artificiais nas eleições de 2026. Batizada de “Dona Maria”, a personagem foi concebida para atacar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e a esquerda, operando sob uma falsa aura de manifestação espontânea.



A Federação Brasil da Esperança (PT, PV e PCdoB) protocolou no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em 22 de abril, uma representação (nº 0600707-02.2026.6.00.0000) exigindo a suspensão imediata e a remoção integral dos perfis associados à personagem no Instagram, TikTok, Facebook, YouTube e X. A acusação central aponta propaganda eleitoral antecipada, uso irregular de IA, disseminação de fake news e operação de perfil apócrifo.

A fabricação de uma “voz do povo” e o drible na lei


A estratégia consistiu em criar uma persona virtual capaz de gerar identificação imediata com o eleitorado popular. A “Dona Maria” não se apresenta como um robô, mas emula uma cidadã indignada. A representação da federação destaca que, embora um vídeo inicial mencionasse o uso de inteligência artificial, as centenas de postagens subsequentes omitiram qualquer rotulagem.

O método viola frontalmente o artigo 9º-B da Resolução 23.610 do TSE, atualizada para as próximas eleições. A norma exige que qualquer conteúdo multimídia sintético informe de modo explícito, destacado e acessível que o material foi fabricado. Mais grave: a resolução proíbe expressamente o uso de deepfake, criação de imagem ou voz de pessoa fictícia, para prejudicar candidaturas, classificando a prática como potencial abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação.

Do motorista de aplicativo às “”milícias digitais”


O responsável pela criação do perfil foi identificado como Daniel Cristiano dos Santos, de 37 anos, motorista de aplicativo em Magé (RJ). Ele admitiu a autoria e confirmou alinhamento ideológico com o bolsonarismo. No entanto, a operação do perfil não opera em um vácuo isolado.

A apuração revela que o avatar foi integrado a um ecossistema mais amplo e sofisticado. A “Dona Maria” produziu conteúdos de apoio a agendas de parlamentares da ultradireita, conectando-se diretamente às redes que mobilizam influenciadores bolsonaristas.

Alcance de 102 milhões e a monetização do ataque


O impacto da personagem sintética supera o de lideranças políticas tradicionais. Levantamentos públicos e dados levantados nas redes sociais pela Fórum indicam que os vídeos da “Dona Maria” acumularam mais de 110 milhões de visualizações e 11,5 milhões de interações nas redes sociais. Um único vídeo alcançou a marca de 22 milhões de reproduções antes de ser derrubado.

A escala massiva viabilizou a exploração econômica, descaracterizando a tese de manifestação política individual. O criador admitiu faturar cerca de R$ 1.500 mensais com o perfil e, segundo as provas anexadas ao TSE, a conta passou a receber propostas de casas de apostas, além de promover cursos de inteligência artificial e automação para Instagram. Trata-se da monetização direta da desinformação política.

Fake news tributárias e o rastro invisível do WhatsApp


A linha editorial da “Dona Maria” priorizou a viralização pelo pânico econômico e moral. Entre as desinformações flagradas, destaca-se a invenção de um suposto “imposto da reciclagem” direcionado a catadores de latinha, mentira que exigiu desmentidos governamentais oficiais, e ataques sistemáticos à segurança do Pix e ao STF.

A distribuição do material revela a tática de guerrilha digital. Os vídeos não se limitaram ao algoritmo das redes; eles foram sistematicamente disponibilizados em comunidades de WhatsApp e Telegram. Nestes aplicativos, o conteúdo perde o link de origem e chega ao eleitor como um arquivo solto, encaminhado por pessoas de confiança. Sem qualquer aviso de que a mulher na tela é um produto de computador, a mentira consolida-se como verdade irrefutável.

O teste de fogo para as eleições de 2026


A Justiça Eleitoral permite a propaganda oficial apenas a partir de 16 de agosto de 2026. A ação da federação pede que o TSE não apenas derrube as contas atuais, mas impeça replicação, reupload e impulsionamento de conteúdos equivalentes.

O desafio tecnológico, contudo, já está posto. Após ter uma de suas contas derrubadas por disseminação de fake news, o criador inaugurou o perfil @dn.mariass no TikTok.

Em tom de desafio aberto à moderação e à Justiça, estampou o aviso: “Vão derrubar uma conta, mas criarei outras na mesma hora. Desistir jamais”.
A resposta que o TSE dará a este caso estabelecerá a jurisprudência para as eleições de 2026. A Corte decidirá se avatares apócrifos gerados por IA serão tolerados sob o pretexto de “liberdade de expressão” ou se o rigor da lei desmantelará fábricas sintéticas de desinformação antes que contaminem irreversivelmente as urnas.”
https://www.msn.com/pt-br/noticias/brasil/dona-maria-a-mulher-negra-que-foi-criada-por-ia-e-%C3%A9-usada-pelo-bolsonarismo-para-atacar-lula/ar-AA21PrNd?ocid=msedgntp&pc=U531&cvid=69f0803b0fbb4491b2fff828cb06994f&cvpid=13a691a989cb4caac1e8e98fa4589a89&ei=48
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